14 de janeiro de 2010
Outras camadas do Paraguai
Ficou para trás, na tarde de ontem, a Ponte da Amizade, tão mostrada pela mídia, através das imagens das pessoas jogando suas compras no rio, para se livrarem do pagamento do imposto, que, segundo os vendedores das lojas, é de 50% do valor do produto adquirido, e, quando se paga, leva-se em média duas horas numa operação que acontece numa agência do Banco do Brasil, situada na aduana, como uma continuação da Receita Federal. Não tem como passar por essa tão televisionada ponte, e não acessar o arquivo, que em nós, é formado por meio das notícias. Logo, é mesmo impressionante como os meios de comunicação constroem nosso olhar sobre os espaços, as pessoas, as ideias, os sentimentos etc. Constatação esta, que além de nos obrigar a lutar por uma comunicação que permita a expressão de todos e todas, nos diz que precisamos caminhar, nos movimentar, sair de onde estamos para ver o que é mesmo que existe no mundo, saber como é o mundo, tocar o mundo. Estou nessa. Nessa de enxergar o Paraguai para além de uma grande loja comercial, onde tudo se compra e se vende. Quero falar muito mais de como estou me sentindo, ao ver e viver um Paraguai que ultrapassa as marcas Sony e Panasonic, e que vai além dos perfumes baratos e das negociações escusas. Sim, estou tocando um Paraguai que luta pelo direito à terra; um Paraguai, que em suas ruas, abriga carros antigos, mas não pessoas famintas; um Paraguai, onde a sopa não se pode tomar de colher, pois é sólida, e a agitação parece ser uma palavra fora do vocabulário do seu povo, pois Assunção é uma cidade pacata e carrega uma simplicidade - que a princípio - parece decifrável para quem a olha com atenção. Sinto vontade de preencher mais este texto com as vivências tidas aqui até o momento, mas vou precisar conclui-lo, o que farei deixando alguns registros fotográficos feitos na minha caminhada pelas "calles". Sim, há muito já em mim para sair em forma de palavra, mas daqui a pouco vou participar de uma entrevista com Belarmino, um dos condutores do Movimento Campesino Paraguaio (MCP). Depois, devo visitar a sede de uma emissora de televisão comunitária e conhecer um pouco mais desta cidade, que foi por mim encontrada, por volta da meia-noite de hoje, quando a Caravana aqui chegou. A saída de Foz de Iguaçu, a travessia da Ponte da Amizade e a chegada aqui ainda merecem muito mais de minhas mãos escreventes. E que este mais venha.
12 de janeiro de 2010
Muitos quilômetros
Tomei banho, o corpo não está tão cansado, a fome vem chegando e daqui a pouco vou comer. Provavelmente será um sanduíche, já que o cheiro de pão assando, com recheio de queijo e presunto, toma conta do ar. Há um barulho em volta de mim, mas vou tentar sublimar o cerco que me rodeia, pois sinto a necessidade de falar da conversa da minha pele com o tempo.
Bom, mas antes de qualquer narrativa nova, preciso fazer um anúncio mais completo do meu momento atual. Vamos lá: Eu, Sarah, 32 anos, jornalista, doutoranda de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), devota das palavras, desejosa de mais conhecimento e amante do amor, fui selecionada, no dia 15 de dezembro, para a Iniciativa UFBA Latina (INULAT), uma caravana que consiste numa expedição terrestre composta por 17 estudantes, seis documentaristas e dois motoristas e que, com o objetivo de estudar e valorizar a integração regional da América Latina, vai percorrer nove países da América do Sul.
O ônibus, que leva a Caravana, todo colorido e com um mapa estilizado dando-lhe marca única, saiu de Salvador, sexta-feira última, dia 08, sob uma emoção deliciosa: meu pai, minha irmã Cláudia, meu namorado e meus amigos, assim como os familiares dos outros integrantes da Caravana, foram acompanhar a partida da Caravana e nos deixaram seus depoimentos sensíveis. Num desejo coletivo de boa viagem, seguido de uma oração feita em roda, o motor do ônibus foi acionado e a saída aconteceu. Obá!
Eu colhi todas as delícias da partida, que aconteceu no Campus da UFBA, em Ondina, mas deixei o ônibus seguir, pois precisava fazer algumas coisas, em Salvador, antes de me lançar na viagem de dois meses pelo nosso continente. Ontem, segunda-feira, após um fim-de-semana de gostosas horas, embarquei então numa longa viagem aérea para a cidade de Foz de Iguaçu. Foram três aeronaves até chegar em Foz.
Ainda não passaram 24 horas desde que cheguei e muitas sensações me visitaram. Agora faz uma noite de chuva, estou num albergue espaçoso e verde, após um dia de pouquíssima ventilação e imagens colhidas nas Cataratas do Iguaçu. Que exuberância, meu Deus! Ali reside o poder da água que bate com força na pedra. Huhuhuhu! Que assim permaneça, que assim permaneça e nada me escape, que assim permaneça e nada me leve para o contrário do olhar expandido, que assim permaneça e o meu coração cresça com as emoções boas, que me tomarem pelo extenso caminho, que, amanhã, ruma para Assunção, no tão vizinho Paraguai, onde o Brasil acionou uma guerra, deixando uma triste passagem em nossa história. Vamos ver o que vou sentir lá.
Bom, mas antes de qualquer narrativa nova, preciso fazer um anúncio mais completo do meu momento atual. Vamos lá: Eu, Sarah, 32 anos, jornalista, doutoranda de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), devota das palavras, desejosa de mais conhecimento e amante do amor, fui selecionada, no dia 15 de dezembro, para a Iniciativa UFBA Latina (INULAT), uma caravana que consiste numa expedição terrestre composta por 17 estudantes, seis documentaristas e dois motoristas e que, com o objetivo de estudar e valorizar a integração regional da América Latina, vai percorrer nove países da América do Sul.
O ônibus, que leva a Caravana, todo colorido e com um mapa estilizado dando-lhe marca única, saiu de Salvador, sexta-feira última, dia 08, sob uma emoção deliciosa: meu pai, minha irmã Cláudia, meu namorado e meus amigos, assim como os familiares dos outros integrantes da Caravana, foram acompanhar a partida da Caravana e nos deixaram seus depoimentos sensíveis. Num desejo coletivo de boa viagem, seguido de uma oração feita em roda, o motor do ônibus foi acionado e a saída aconteceu. Obá!
Eu colhi todas as delícias da partida, que aconteceu no Campus da UFBA, em Ondina, mas deixei o ônibus seguir, pois precisava fazer algumas coisas, em Salvador, antes de me lançar na viagem de dois meses pelo nosso continente. Ontem, segunda-feira, após um fim-de-semana de gostosas horas, embarquei então numa longa viagem aérea para a cidade de Foz de Iguaçu. Foram três aeronaves até chegar em Foz.
Ainda não passaram 24 horas desde que cheguei e muitas sensações me visitaram. Agora faz uma noite de chuva, estou num albergue espaçoso e verde, após um dia de pouquíssima ventilação e imagens colhidas nas Cataratas do Iguaçu. Que exuberância, meu Deus! Ali reside o poder da água que bate com força na pedra. Huhuhuhu! Que assim permaneça, que assim permaneça e nada me escape, que assim permaneça e nada me leve para o contrário do olhar expandido, que assim permaneça e o meu coração cresça com as emoções boas, que me tomarem pelo extenso caminho, que, amanhã, ruma para Assunção, no tão vizinho Paraguai, onde o Brasil acionou uma guerra, deixando uma triste passagem em nossa história. Vamos ver o que vou sentir lá.
4 de janeiro de 2010
Nada é por nada
Não foi em vão, foi meu corpo que não aguentou. Sou muito corpo para não ter meu corpo no lugar que merece em minhas vivências. Meu corpo me guia no mundo. Meu pé é mais do que meu pé. Minhas pernas precisam de mãos que lhes toquem. Meus seios precisam do tato masculino e da língua que circula tudo que sou e levo comigo.
2 de janeiro de 2010
Que a energia se renove
E eu, que passei o ano de 2009 todo sem consegui me conectar com as datas que requerem os meus rituais, transformei o reveillon numa noite perdida e vazia de alegrias. Não houve fogos acima dos meus olhos e nem espumante descendo pela garganta. E de tudo tinha para ser uma excelente passagem de ano: namorado amável; festa poética em casa de amiga sensível; um poema, de Adélia Prado, e outro, de Damário Dacruz, decorados para falar na hora da virada; o último pôr-do-sol do ano, visto com o meu amor, no Porto da Barra; livro para dar de presente à amiga; duas flores vermelhas em casa; uma fruteira linda esbanjando bananas, ameixas e uvas; vestido branco comprado com antecedência. Ou seja, a quinta-feira caminhava para encontrar um delicioso desfecho, quando o último banho do ano me chegou como uma negativa a tudo de belo que poderia me ser. Toquei o meu corpo e senti sensações que me diziam o quanto corri nos 12 meses do ano, de modo que anversariei atropeladamente, após uma viagem ao Rio de Janeiro; não amei bem os que precisam dos meus presentes; não consegui estar ritmada com a celebração e nem pude ter uma conversa de pé de ouvido com a contemplação; me escapou o espírito contagiante que me estabelece na vida como amante de tudo de maravilhoso que habita o mundo; se foi um senso leve que me significa pureza, e o meu feminino simplesmente se perdeu. O banho me disse o quanto eu não tive tempo para mim, para me perceber, e esta constatação no último banho do ano me fez me desmanchar em palavras perdidas, me desfazer em chamados que não me servem. Briguei com quem me gosta, espalhei o que não edifica e, de salto alto vermelho, caminhei sozinha pelas ruas. Fiz o trabalho sujo de estragar o reveillon. E como me dói saber que fiz isso, que não segurei e emoção que me chegou, ao pendurar a toalha no banheiro. Depois que me sequei, sei lá o que me deu, que eu me transformei numa alucinada mulher gritando as insatisfações. Meu Deus, me cura disso, me cura dessa pressa, dessa necessidade de estar permamentemente ligada, me cura de ter tantos diferentes pensamentos ao mesmo tempo, me salva do que eu não preciso ser, não me deixe me perder em embaraços. Que 2010, eu sinta, simplesmente sinta, com leveza, esta vida linda que o Senhor me deu.
30 de dezembro de 2009
Rapidez
Ausentei-me deste lugar e volto com a notícia de uma viagem que começa no próximo dia 8. Seguirei de ônibus com um grupo da UFBA por nove países da América do Sul. Pois é, a vida é muito rápida e as incertezas continuam sendo a aspiral que a encaderna. Entra ano, sai ano, e tudo parece ainda mais incerto, por isso, o lema é não nos desperdiçar. Não deixar escapulir o melhor que somos, não encobrir a força vital com sentimentos que não prestam. Bom, mas enquanto me chegava a notícia da viagem, fruto de um processo seletivo que participei na universidade, as luzes cobriram as cidades e a noite de Natal chegou. Fez-se acontecimento em meu universo, como em tantos outros. Catei um sentido para ele, virei e revirei, buscando identificar o que ele significa em minha fase adulta. Encontrei como sentido o encontro entre as pessoas, o ato de presentear quem se gosta, as visitas à casa das tias, a troca de afagos, a chegada de mensagens de amigos queridos, um repensar sobre o tamanho da minha família, que há tempos é constituída das mesmas seis pessoas, e a constatação de que mudanças chegam para todo mundo: minha mãe começou a aprender a se priorizar, pois acordou às 6h para ir ao salão; não quis correr o risco de ficar sem as unhas feitas e o cabelo tingido na noite do dia 24, dia em que costumeiramente ela se entrega à realização de inúmeras tarefas domésticas e, sobretudo, administrativas, de modo que não sobra tempo para os cuidados consigo. Ah, e o mais interessante é que a frase que deu esta dimensão de aprendizado veio de Margarida, que trabalha com minha mãe há muitos anos. Ela disse: "Dona Lurdinha aprendeu a viver, foi bem cedo pro salão este ano". Bom, mas o melhor do meu Natal foi saber que Jeferson é o menino Jesus. Vou contar a história: ele é neto de minha tia Nalvinha, tem oito anos e é um menino bastante emotivo. No final da tarde de um certo sábado, ele saiu com a avó pelas ruas do bairro do Sobradinho para fazer um breve passeio. Era quase noite, quando voltaram para casa, e, no Sobradinho, já é hora dos feirantes, que no domingo trabalham na feira, estarem com seus cestos vendendo seus produtos. Minha tia aproveitou para comprar feijão nas mãos de uma mulher e seguiu para casa. Passados uns poucos instantes, viu que Jeferson chorava muito. Ela parou o que estava fazendo e lhe perguntou o que estava acontecendo. Ele disse: "eu estou chorando porque aquela mulher, do feijão, minha avó, vai dormir na rua, e isso não tá certo, na rua não tem cama, não tem coberta e nem tem comida". Minha tia, muito sentida, tentou lhe dizer que ela estava acostumada a passar a noite de sábado na rua para poder fazer uma feira mais proveitosa no domingo. Ele, com os olhos cheios de lágrimas, disse: "Então, vamos voltar lá e comprar todo o feijão dela, e aí ela pode ir pra casa". Minha tia ficou sem palavras. E ao me contar, fiquei eu, sem palavras, arrepiada e certa de que o humano é muito tocante. Jeferson é o meu menino Jesus.
3 de dezembro de 2009
Um nobre despertar
1 de dezembro de 2009
Sou assim
A energia da frustração me recheia do que não gosto. Afinal, eu sou tão atenta à vida e quero tanto e absolutamente que tudo nela seja repleto de sabor, que, quando aquilo que eu planejo com amor desacontece, perco o controle, e aí vem a desassossegadora sequência: eu me desacerto com o mês de novembro, uso o verbo "registrar" no lugar de "comemorar", desperdiço possibilidades, jogo fora situações únicas, me embaraço com sensações de vazio, arremesso palavras cruas nos ouvidos alheios, exijo posicionamentos como se o meu modo de enxergar os acontecimentos fosse lei, exalto o fato de não ter tido o vestido de bolinha notado como bonito e enlouqueço ao ver o meu feminino negligenciado pelos olhos do homem que está comigo. Eu sou assim.
22 de novembro de 2009
Para minha amiga
Não deixe que seu cabelo lhe escape, seu corpo lhe negue, a expressão da beleza lhe abandone e o homem, que veio para colher quem você é, desapareça. Então, seja, seja e seja. Agora, já e imediatamente.
12 de novembro de 2009
Conhecimento de si
Tão bom quando os tons, os sons, os cheiros, as texturas; as pessoas, os caminhos, a luz, a sombra; as escolhas, os sabores, os nomes, as tendências; as estrelas, o ar, as impressões começam a se mostrar mais decodificáveis aos nossos olhos! O nebuloso perde força e a transparência se instala. Passamos a estar no mundo como seres mais cientes do que somos e do que queremos, e isto é mesmo fundamental para tocarmos a vida.
Sim, nada substitui o saber de mim sobre mim, de você sobre você, dele sobre ele, de minha mãe sobre minha mãe, do nadador sobre ele próprio, da cartomante sobre ela mesma etc. Eu, por exemplo, gosto de saber que gosto muito mais de azul do que de cinza, que quando a luz do fim do dia se instala por entre as nuvens eu experimento uma inigualável sensação de bem-estar, e que, quando é domingo, gosto de amanhecer leve, acarinhar meu amor, tomar tranquilamente um café e depois ler o jornal.
Gosto de saber que eu gosto de comer bolo gostoso, que gosto de fim-de-semana curtido com vontade, de filmes que ensinam, livros que desconcertam, samba, muito samba, e gente que conversa usando palavras saídas da alma. Que não gosto de humilhações, formalidades, certas convenções, roupas da moda, Wanessa Camargo e cenas televisivas que não me acrescentam. Gosto de saber que gosto de rir, dançar e de me singularizar na pele do outro. Que não gosto de egos inflados, gestos de guerra, filmes dublados, pedantismo intelectual e vozes que não ecoam sentimentos.
Gosto de saber que gosto de conversar com amigos, estar com minha família, escrever cartas de amor, tomar banho de mar e receber o sol nos seios; que prefiro o profundo à superficialidade, a animação ao tédio, a alegria à melancolia, casa a apartamento, decoração clássica à moderna; que adoro beijo na boca e um toque delicioso nas pernas. Que não gosto de preconceito, giló e da aceleração insana da humanidade.
Gosto de saber que gosto da efervescência do trio elétrico na avenida carnavalizada, de viagens marcantes, caminhadas bonitas, trilhas, banhos de cachoeira, muito verde, algumas noites de farra e outras bem dormidas, e que não gosto de Jorge W. Bush e de ritmos musicais enlatados. Gosto de saber que gosto e não gosto.
Sim, nada substitui o saber de mim sobre mim, de você sobre você, dele sobre ele, de minha mãe sobre minha mãe, do nadador sobre ele próprio, da cartomante sobre ela mesma etc. Eu, por exemplo, gosto de saber que gosto muito mais de azul do que de cinza, que quando a luz do fim do dia se instala por entre as nuvens eu experimento uma inigualável sensação de bem-estar, e que, quando é domingo, gosto de amanhecer leve, acarinhar meu amor, tomar tranquilamente um café e depois ler o jornal.
Gosto de saber que eu gosto de comer bolo gostoso, que gosto de fim-de-semana curtido com vontade, de filmes que ensinam, livros que desconcertam, samba, muito samba, e gente que conversa usando palavras saídas da alma. Que não gosto de humilhações, formalidades, certas convenções, roupas da moda, Wanessa Camargo e cenas televisivas que não me acrescentam. Gosto de saber que gosto de rir, dançar e de me singularizar na pele do outro. Que não gosto de egos inflados, gestos de guerra, filmes dublados, pedantismo intelectual e vozes que não ecoam sentimentos.
Gosto de saber que gosto de conversar com amigos, estar com minha família, escrever cartas de amor, tomar banho de mar e receber o sol nos seios; que prefiro o profundo à superficialidade, a animação ao tédio, a alegria à melancolia, casa a apartamento, decoração clássica à moderna; que adoro beijo na boca e um toque delicioso nas pernas. Que não gosto de preconceito, giló e da aceleração insana da humanidade.
Gosto de saber que gosto da efervescência do trio elétrico na avenida carnavalizada, de viagens marcantes, caminhadas bonitas, trilhas, banhos de cachoeira, muito verde, algumas noites de farra e outras bem dormidas, e que não gosto de Jorge W. Bush e de ritmos musicais enlatados. Gosto de saber que gosto e não gosto.
11 de novembro de 2009
Investimento
O universo não para pra que eu me organize. Não há sala de espera na casa-tempo. Se é para entrar, deve-se entrar logo.
7 de novembro de 2009
Dia 7 de novembro
Uma palavra desliza na outra. O calendário informa que é 7 de novembro. Há alegrias para serem colhidas nesta data, mas o corpo não foi procurado do jeitinho que deve, por isso, não está aceso.
31 de outubro de 2009
Um papo com o cansaço
Não, que nada, não venha pra cá corroer meu lirismo. Você não me oportuniza o sorriso. Para que eu preciso do sorriso? Para alimentar o mundo do que ele está necessitando, ou seja, de uma suavidade que duele com o atropelamento das emoções. Sim, o mundo me escreveu uma carta. Deu de me pedir que não seja mais uma a cumprir os mesmos ritos que esvaziam relações e solidificam corações. Ui, que responsa a minha, pensei. Mas, guardei a carta na caixa preciosa e me pus a tentar cumprir o seu apelo. Depois que li a correspondência, quis sentir o gosto de uma fruta suculenta, quis também ver um quintal cheio de roupas coloridas, andar na areia da praia e contemplar, contemplar, contemplar, tendo como sobremesa brigadeiro de colher. Sei que para sobreviver é necessário correr atrás, fazer, construir, dar conta disso e também daquilo e também daquilo mais, mas, por favor, não leve meu gingado de menina-mulher que gosta de ler a escritura do mundo.
28 de outubro de 2009
Refazendo-me
Não é somente minha flora intestinal que precisa ser recomposta. Por isso, se houver yakute para refazer a prosa e a poesia que existem em mim, eu também vou ingerir, pois, se os médicos prescreveram um antibiótico para combater a bactéria que me visitou, e recomendaram rigorosos cuidados alimentares, minha vida está me pedindo uma profunda atenção. Há tempos venho sentido-me longe de mim, sem conseguir tratar comigo os assuntos que me são tão valiosos. Imersa numa rodada de afazeres que não cessa, fui ficando sem encaixe com aquilo que me é mais precioso: a escrita sensível. Uma sensação de despertencimento foi me chegando, eu acumulei emoção sem transformá-la em palavras e, quando procurei, a superficialidade estava querendo se instalar. Ôps, não vou deixar.
22 de outubro de 2009
Ui...
Eu estava fragmentada e sem tempo. Eu me sabia cansada, mas ainda assim insisti. Fui, mesmo ciente de que não seria fácil me conectar. Sem traquejo para me dar limites, me propus a acompanhar, e aquilo, que pensei que iria me salvar, me deixou mais pra baixo, me fez receosa e presa ao que, por enquanto, desconheço. Agora, devo-me algumas reflexões. Vou fazê-las com muita calma. A poesia merece isso de mim.
14 de outubro de 2009
Só hoje
Hoje, não. Não, não quero. Não quero aventuras, não estou a fim de me colar na beira da busca incerta, estou cansada e quero sossego. Necessito de caminhos curtos e providências que não dêem margem a surpresas. Não, não quero ter que dar conta de nada diferente do que já estou acostumada a fazer. Hoje, quero a repetição e lhe peço: não me julgue por esta escolha. Tenho este direito. O direito de repetir, de vibrar intimamente com a rotina mais banal do cotidiano que traço todos os dias como fruto do meu jeito de me colocar no mundo. Ei, moço, permita que eu me reserve para a exatidão, pra aquela exatidão que não fere ninguém e que é tão bem-vinda quando estamos pesados porque frustrações e perdas nos chegaram. Isso! Deixe-me não querer ser aventureira, não me lançar, não me arremessar, nem muito menos me arriscar. Preciso de respostas que eu sei onde posso encontrar. É só hoje. Amanhã, prometo estar, de novo, nos braços da possibilidade, que eu - lhe digo -, não sei para aonde vão me levar, e exatamente por isso é que eu seguirei envolvida neles.
13 de outubro de 2009
Débito
Devo um texto de alegria. O débito foi contraído sábado, dia 3 de outubro, em Feira de Santana, na Estação da Música, onde o verde tomou conta da noite. Razão do débito: formatura em farmácia de minha única irmã que ainda não havia concluído a universidade. Por mais que eu queira transmitir o tamanho do débito, penso que não vou conseguir. Isso porque o texto que tem que ser escrito precisa comunicar o que, talvez, somente uma roda de samba tem competência para fazer. É que a formanda-formada era uma exuberância tão gigante de felicidade, que parece que não há tradução que alcance o patamar do seu esplendor. Fica a impressão de que a escrita não tem como semantizar o seu sorriso. Bom, mas ainda tenho fé que vou ter condição de escrever alguma coisa a partir das emoções que ela causou em todos os seus convidados. Contudo, enquanto preparo algo para falar, enquanto o texto não nasce em mim, vou reunindo as sensações que tive durante a festa para que elas me mostrem palavras, e ao mesmo tempo vou procurar alguns compositores de samba para que façam um samba-enredo e dediquem para a senhorita Cláudia Maria de Oliveira Carneiro, rainha da plenitude.
30 de setembro de 2009
Ovo
Minha casa é uma gracinha. Nela há livros, jornais, revistas, telas, poesia, espelho em forma de flor, tapetes que costuram retalhos, brinquedos, fotos e recados. Mas, minha casa está tão destituída de mim! Tenho ficado tão pouco nela, que, quando nela estou, sinto-me distante de suas partes. Aí fica minha casa sem meu eu dentro, entende? E eu sem minha casa dentro de mim. Resultado: sou uma gema sem clara, e ela uma clara sem gema.
27 de setembro de 2009
Escrevendo para ser-me
Não me esqueci do papel em branco, não me soltei do pescoço da palavra, nem me faltou motivo para escrever. O teclado em nenhum momento deixou de estar ao alcance, a criação não me abandonou e graças a Deus as formosuras da vida não se ausentaram dos meus dias. Contudo, a correria, às vezes, come minhas iniciativas de mulher que escreve para saber mais de si mesma. Inventa de levar com ela o impulso escrevente que me acompanha, e demora para me devolver. Por isso, fico dias sem me manifestar por meio da linguagem sensível. Olha, vou contar um segredo: há momentos em que me falta chance para usar o tempo com soltura. Mas, hoje é domingo, há particularidades no ar e uma descoberta linda me ocorre: estou tocando o que desejei para mim. E é tão lindo quando o desejo se converte em ato concreto! Quando deixa de ser um desenho esfumado e ganha tom palpável e descrítivel, quando seu hiato com a realidade se desfaz e passa o desejo a ter imagem captável a olho nu, passa o desejo a usufruir do caráter de vida ao vivo e a cores. Tão gostoso sentir o desejo ganhando enchimento! Sendo preenchido com o que foi sonhado! Fantástico vê-lo acessar a categoria de coisa tátil e não somente imaginada. Maravilhoso assistir ao desejo pendurar no passado o status de desejo e se carimbar solenemente no presente com o atestado de verdade vivenciada. E viva a realidade que tem o desejo como rascunho, meu Deus!
19 de setembro de 2009
Sábado
Músicas falam da cidade maravilhosa, o sono se instala, estômago pede comida. O laço lilás e as bolinhas brancas revestem minha pele. Meus olhos têm acesso ao que de mais lindo está perto de mim neste momento. Eu contemplo, rezo e sou simplesmente feliz.
9 de setembro de 2009
Setembro que puxa outubro
Antenas ligadas, curiosidade ganhando novas camadas, corpo pedindo exercício físico, desejo crescendo, verbos gostosos saindo pela nuca e uma vontade de aprender mais e mais me tomando da hora que eu acordo à hora que vou dormir. É assim que estou me sentindo nestes dias de setembro, que antecedem outubro, este, um mês que em mim está ressignificado, já que em novembro do ano passado ganhou mais beleza, e passou a ser um mês mais masculino, mais vivo, mais maduro, mais carioca, mais grisalho. De repente, até farei uma homenagem a outubro, que é também o mês da minha irmã Cláudia, irmã delicada e serena. Outubro me é, então, forte e leve como, por vezes, se apresenta o mar para mim.
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