Não foi à toa que o caminho entre Guayaquil e Quito me fez querer ter jarrinhos de flores em casa. A capital equatoriana tem uma forma elegante de se enfeitar. As sacadas dos prédios, as varandas das casas, as repartições públicas, as ruas são carinhosamente adornadas com jarros de flores. Os gerânios dão um ar de lirismo à cidade e instalam um delicado tom, que enche nossos olhos de boniteza. Quito é graciosa, e nela há um lindo centro histórico, uma animada ala moderna, bares muito estilosos, parques sem grade, artesanato bonito e os jardins das suas praças são mimosos como os da casa de vó, não têm a artificialidade do paisagismo urbano: nada dos desenhos geométricos feitos com tesouras que sufocam o formato típico das árvores. Achei isso sensacional e levo Quito comigo.
19 de fevereiro de 2010
18 de fevereiro de 2010
E que venha o oitavo país
Amanhã, às 7 horas, partimos em direção à Colômbia. Ufa, não vamos precisar acordar às 4, o que é comum quando a estrada é o alimento dos nossos olhos, conforme já comentei anteriormente. Confesso que ter mais três horas de sono me agrada muitíssimo. Vou poder alongar o sonho e abastecer o corpo de energia para dar conta de mais horas e horas dentro do nosso amado ônibus.
Até Bogotá o percurso, embora seguro, requer cuidado em virtude das diferentes forças que convivem no território colombiano. Fizemos uma reunião há poucos instantes, olhamos o mapa, vimos por onde vamos passar e estamos atentos às recomendações dadas pela Embaixada do Brasil naquele país. Seremos obedientes.
Por precaução, retiramos Medellín do nosso roteiro. Afinal, esta viagem é assim: um exame permanente de possibilidades, e, por isso, recorremos insistentemente ao estudo lírico dos riscos e ao contínuo exercício do desapego. Que aprendizado belo este! Estamos indo, fazendo, tocando, cumprimentando o que estar em nossa frente, de modo que ora nos aparece o que não estava programado, como o banho de mar no Pacífico em plena rodovia, o que se deu porque erramos o caminho; ora sai de cena aquilo que estava planejado, como aconteceu com Machu Picchu.
Então, como somos seres do "não sei", eu abraço absolutamente tudo que me surge: a fotografia do senhor sentado na praça, o capim crescendo no parque, a roda do ônibus atrás do canteiro florido, o sorriso boliviano de Ada, o cabelo grande do taxista em La Paz, uma mulher, no batente da porta, em Quito, amamentando sua filhinha que vestia um lindo vestidinho rosa; o café com leite da cidade peruana de Trujillo, as cores do Caminito, em Buenos Aires; a conversa com José, em Assunción... e tudo mais que eu nem consigo dizer.
Afinal, já passamos pelo Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Equador. A emoção ferve e eu digo: que venha a Colômbia.
Até Bogotá o percurso, embora seguro, requer cuidado em virtude das diferentes forças que convivem no território colombiano. Fizemos uma reunião há poucos instantes, olhamos o mapa, vimos por onde vamos passar e estamos atentos às recomendações dadas pela Embaixada do Brasil naquele país. Seremos obedientes.
Por precaução, retiramos Medellín do nosso roteiro. Afinal, esta viagem é assim: um exame permanente de possibilidades, e, por isso, recorremos insistentemente ao estudo lírico dos riscos e ao contínuo exercício do desapego. Que aprendizado belo este! Estamos indo, fazendo, tocando, cumprimentando o que estar em nossa frente, de modo que ora nos aparece o que não estava programado, como o banho de mar no Pacífico em plena rodovia, o que se deu porque erramos o caminho; ora sai de cena aquilo que estava planejado, como aconteceu com Machu Picchu.
Então, como somos seres do "não sei", eu abraço absolutamente tudo que me surge: a fotografia do senhor sentado na praça, o capim crescendo no parque, a roda do ônibus atrás do canteiro florido, o sorriso boliviano de Ada, o cabelo grande do taxista em La Paz, uma mulher, no batente da porta, em Quito, amamentando sua filhinha que vestia um lindo vestidinho rosa; o café com leite da cidade peruana de Trujillo, as cores do Caminito, em Buenos Aires; a conversa com José, em Assunción... e tudo mais que eu nem consigo dizer.
Afinal, já passamos pelo Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Equador. A emoção ferve e eu digo: que venha a Colômbia.
16 de fevereiro de 2010
Um dia leve em Quito
O primeiro aspecto que quero sublinhar em Quito é que sua economia é dolarizada e isso me incomoda bastante porque sugere subserviência. Estranho ver todos os preços em dólar, sentir a cidade muito americanizada e com uma identidade espumante que parece não se firmar. Ainda é cedo para falar da capital equatoriana, onde há a parte moderna, que se chama Mariscal e é onde estamos hospedados, e a parte colonial, mais antiga e que ainda não conheci.
Ontem, foi feriado nas bandas de cá. Por isso, o dia me rendeu um acordar mais tardio, um delicioso café da manhã, um passeio sem pressa pela livraria Libri Mundi, a aquisição de livros preciosos, uma visita a uma loja de artesanatos, uma sopa quentinha no final da tarde, na companhia de Fred, Camila e Mari; um papo muito legal nesta roda boa, um rápido banho de chuva, uma conversa saudosa com meu amor, uma salada rica no jantar e mais vontade de perceber detalhes.
Por isso, vi os jarrinhos de flores nas varandas, em Quito, assim como vi muitos outros a caminho daqui. De tanto que gostei de vê-los, passei a chamar o trecho entre Guayaquil e Quito de "o começo do meu gostar de jarrinhos de flores arrumados em fila". E o gostar já está tão iniciado em mim, que comprei, na Libri Mundi, uma cadernetinha linda com um jarrinho estampado em sua contracapa. Desejo regá-la e escrever bonitos poemas em suas páginas. Ah, quero também ter jarrinhos enfileirados no Cerco Sarah de Ser, que é a minha casa.
Ontem, foi feriado nas bandas de cá. Por isso, o dia me rendeu um acordar mais tardio, um delicioso café da manhã, um passeio sem pressa pela livraria Libri Mundi, a aquisição de livros preciosos, uma visita a uma loja de artesanatos, uma sopa quentinha no final da tarde, na companhia de Fred, Camila e Mari; um papo muito legal nesta roda boa, um rápido banho de chuva, uma conversa saudosa com meu amor, uma salada rica no jantar e mais vontade de perceber detalhes.
Por isso, vi os jarrinhos de flores nas varandas, em Quito, assim como vi muitos outros a caminho daqui. De tanto que gostei de vê-los, passei a chamar o trecho entre Guayaquil e Quito de "o começo do meu gostar de jarrinhos de flores arrumados em fila". E o gostar já está tão iniciado em mim, que comprei, na Libri Mundi, uma cadernetinha linda com um jarrinho estampado em sua contracapa. Desejo regá-la e escrever bonitos poemas em suas páginas. Ah, quero também ter jarrinhos enfileirados no Cerco Sarah de Ser, que é a minha casa.
Texto grande porque estou repleta
Na sequência dos dias, as rotas vão mudando porque de outro modo não dá pra ser. Nosso plano era adentrarmos o Equador no dia 14 (domingo), mas alcançamos sua porta de entrada no dia 13 (sábado). A antecipação se justifica porque havia uma previsão de maior permanência em Paita, cidade para a qual seguimos a partir de Piura, última localidade peruana onde dormimos, e isso foi no dia 12 (sexta-feira). Foram muitas situações até chegarmos no destino, de modo que sinto a necessidade de rememorar o percurso, saindo de Lima com direção a Quito.
No dia 11 (quinta-feira), deixamos Lima, dormimos, em Trujillo, onde ficamos num hotel com quarto de decoração florida, cuja porta dá para um corredor gigante - desconfio que aquele é o corredor mais comprido que já vi na vida. Chegamos em Trujillo, à noite, e a cidade oferecia poucos lugares para comermos. A opção era, mais uma vez, nos darmos ao frango, que em espanhol significa pollo e é um dos pratos mais servidos por onde passamos. Pollo e papas fritas, que é batata frita, estão em praticamente todos os cardápios que já toquei durante a viagem, sobretudo, a partir da Bolívia. É tanto pollo que existem as Pollerias, casas especializadas em pollo.
A solução neste dia, em Trujillo, foi um restaurante 24 horas localizado bem pertinho do hotel onde o garçom era o grande personagem: um senhor, de baixa estatura, com um engraçado modo de andar e um jeito de falar que lhe fazia emitir poucas palavras. Como eu não queria jantar, pedi um pão com queijo e café com leite. Antes, um suco de abacaxi, que também foi pedido por outras pessoas. Quando nosso atendente apontou na mesa, eis que nos trouxe muito mais copos de suco do que havíamos solicitado. Solução: bebermos tudo até esgotar e guardarmos esta história para nossa galeria de risos.
Ah, o café chegou bastante concentrado numa espécie de bule de vidro, acompanhado de uma xícara cheinha de leite. Dissolvi no leite o denso líquido negro, assim como fez Ramon, outro caravaneiro que, naquela noite, também quis café com pão e queijo. Antes de tomarmos o café, fotografei o ato de alcançar a mistura "café com leite", em Trujillo, e me lembrei de La Paz, onde a soma do leite com o café acontece da mesma forma. Sai dali e fui direto para o hotel; tomei banho e dormi porque o corpo pedia cama. No outro dia, acordamos bem cedo, como é de costume: quase todas as vezes que vamos pegar a estrada, levantamos às 4 horas da manhã, e claro que vamos para o ônibus cambaleando de sono, mas não demora, já estamos dormindo novamente.
De Trujillo, no dia 12 (sexta-feira) seguimos até Piura, e como eu já mencionei num post anterior, no caminho, trocamos o pneu do Inulatão (nosso querido ônibus que me pede um poema todos os dias). Em Piura, almoçamos, vimos seu centro comercial agitadíssimo, jantamos e dormimos. Ali também fiz meu relatório de viagem, conforme solicitado pela coordenação. Dormi muito tarde nesta noite. Todo o hotel dormia, estava tudo escuro: erámos somente eu e a luz do meu computador. Eu estava na área externa do hotel, havia árvores e eu ouvia suas folhas balançarem. Não sei dizer o que senti ao me ver assim no meio do mundo.
Saindo e indo para outro ponto
Deixamos Piura na manhã do dia 13 (sábado), após o café que foi servido com suco de mamão papaia. Escrevia no computador e me alimentava ao mesmo tempo. Sensação boa esta! Saindo dali, a estrada nos levou até Paita, onde ficamos algumas horas para que os documentaristas da Caravana fizessem algumas imagens. Paita é uma cidade muito quente, embora margeada pelo Pacífico. No mar, muitos barcos pesqueiros; na rua, muita gente andando e as mototáxis estilizadas do Peru: uma moto adaptada como se fosse um automóvel, dispondo de uma estrutura diferente, coberta com uma capa plástica e que permite levar pelo menos duas pessoas como passageiros. Tudo isso empresta à cena urbana de Paita uma unicidade que, em mim, foi ainda mais elastecida pela ida aos Correios, que ali se chama Serviço Postal do Peru ou algo nesses termos; não lembro ao certo.
Sentada na cadeira atrás de uma mesa, estava Irma, uma senhora gentil que me alertou que, para postar carta ali, eu tinha que preencher o envelope conforme a orientação que se encontra pregada no vidro do balcão. Olhei para aonde ela apontou e estava lá, grudado, um envelope como exemplo mostrando o remetente e o destinatário escritos na frente do envelope. Como ainda não tinha visto a dica, eu estava preparando - do jeito que eu sei fazer - os meus envelopes nos quais coloquei cartões-postais, quando ela me interrompeu já com um corretivo, rasurando o envelope. Atendi ao pedido de Irma e postei algumas correspondências; no remetente, escrevi: "Sarah caminhando pelo mundo com o olho expandido e o coração aquecido".
Minha conversa com Irma cresceu e ela me perguntou de onde eu sou. Respondi: sou do Brasil e, de ônibus, estou com um grupo conhecendo nove países da América do Sul. Ela ficou espantada, quis saber quanto custa a passagem do Brasil para o Peru e me revelou que tem uma imensa vontade de conhecer o meu país, embora tenha uma irmã que more nos Estados Unidos e lhe chame constantemente para que vá pra lá. Ai, como foi bom ouvir este sentimento de Irma pelas terras brasileiras! Ela pediu para ver o dinheiro do Brasil, eu tinha uma cédula de R$b 50,00 (Cinquenta reais) na carteira. Saquei-a, ela segurou por um tempo, sentiu a nossa moeda e me devolveu. E, após um envio de cartas tão recheado de emoção, só podia sair dali fazendo uma foto de Irma segurando os meus envelopes, que agora estão em alguma parte do caminho latinoamericano, rumo ao Brasil.
Estive duas vezes no Serviço Postal do Peru. Quando fui da primeira vez, eu não tinha dinheiro para colocar tudo que eu levava em minhas mãos. Mas, como estou guardando um exemplar da moeda de cada país, fui obrigada a sacar dinheiro novamente e, assim, pude colocar mais cartas tendo como destino a Bahia. Que delícia! Coloquei-as preenchendo o envelope como ensinou Irma e, desta vez, sai dali dando-lhe dois beijinhos. Segui caminhando, olhando os arredores e vi, em Paita, uma fila grande em frente ao banco que funcionava em pleno sábado; um cara rodeado de gente fazendo, com ajuda de outro, um desses números grotescos que são comuns em feiras livres e outros espaços; vi também o mar batendo levemente na areia; construções antigas com um ar de decadência e uma mulher conversando com um homem.
Mais caminho pela frente e nosso carnaval acontece
Saimos de Paita, após o almoço, e por volta das 21 horas chegamos na saída do Peru. A escuridão reinava, pois havia faltado energia elétrica. Ali senti uma estranheza no ar, pois o local parecia clandestino: cones na estrada e homens encapuzados indicando um atalho para seguirmos. Fomos e paramos numa estrutura de metal que fazia as vezes da saída do país que tem Lima como capital. Mas só descemos do ônibus, quando a energia retornou. Todos os trâmites foram obedecidos, mais um carimbo em meu passaporte e seguimos até a entrada do Equador, onde chegamos às 21h58min.
Esta precisão na entrada em terras equatorianas só foi possível porque até o momento o Equador dispõe da única fronteira, cujo registro de acesso ao país se faz por meio de uma máquina e não através de um carimbo convencional. Ultrapassada esta passagem, chegamos depois das duas da manhã, em Machala, já no dia 14 (domingo). Machala é uma cidade muito abafada, com muitos mosquitos e com ruas alagadas pela chuva que caia. Dormimos e no outro dia, após o café, tomado em um outro hotel, seguimos até Guayaquil, onde visitamos um parque, vimos iguanas e outros animais, almoçamos num shoppping e seguimos para o hotel.
A noite do dia 14 (domingo) foi maravilhosa. Dedicamo-nos ao carnaval, ou melhor, fizemos o nosso próprio carnaval. Pegamos o sentido da rua, compramos cerveja, mas não se pode beber nas ruas de Guayaquil, o que nos fez encapuzar as garrafas em sacos de papel para consumirmos álcool, enquanto caminhávamos. Andamos, andamos e andamos pelo pier, onde há o Espaço Cultural Libertador Simón Bolivar, e alcançamos o Las Peñas, bairro muito aprazível da cidade, com casarões antigos recuperados. Em cada casa há na fachada a sua foto antes da reforma. Gostei de ver o antes e o depois de cada canto daquele.
No dia 11 (quinta-feira), deixamos Lima, dormimos, em Trujillo, onde ficamos num hotel com quarto de decoração florida, cuja porta dá para um corredor gigante - desconfio que aquele é o corredor mais comprido que já vi na vida. Chegamos em Trujillo, à noite, e a cidade oferecia poucos lugares para comermos. A opção era, mais uma vez, nos darmos ao frango, que em espanhol significa pollo e é um dos pratos mais servidos por onde passamos. Pollo e papas fritas, que é batata frita, estão em praticamente todos os cardápios que já toquei durante a viagem, sobretudo, a partir da Bolívia. É tanto pollo que existem as Pollerias, casas especializadas em pollo.
A solução neste dia, em Trujillo, foi um restaurante 24 horas localizado bem pertinho do hotel onde o garçom era o grande personagem: um senhor, de baixa estatura, com um engraçado modo de andar e um jeito de falar que lhe fazia emitir poucas palavras. Como eu não queria jantar, pedi um pão com queijo e café com leite. Antes, um suco de abacaxi, que também foi pedido por outras pessoas. Quando nosso atendente apontou na mesa, eis que nos trouxe muito mais copos de suco do que havíamos solicitado. Solução: bebermos tudo até esgotar e guardarmos esta história para nossa galeria de risos.
Ah, o café chegou bastante concentrado numa espécie de bule de vidro, acompanhado de uma xícara cheinha de leite. Dissolvi no leite o denso líquido negro, assim como fez Ramon, outro caravaneiro que, naquela noite, também quis café com pão e queijo. Antes de tomarmos o café, fotografei o ato de alcançar a mistura "café com leite", em Trujillo, e me lembrei de La Paz, onde a soma do leite com o café acontece da mesma forma. Sai dali e fui direto para o hotel; tomei banho e dormi porque o corpo pedia cama. No outro dia, acordamos bem cedo, como é de costume: quase todas as vezes que vamos pegar a estrada, levantamos às 4 horas da manhã, e claro que vamos para o ônibus cambaleando de sono, mas não demora, já estamos dormindo novamente.
De Trujillo, no dia 12 (sexta-feira) seguimos até Piura, e como eu já mencionei num post anterior, no caminho, trocamos o pneu do Inulatão (nosso querido ônibus que me pede um poema todos os dias). Em Piura, almoçamos, vimos seu centro comercial agitadíssimo, jantamos e dormimos. Ali também fiz meu relatório de viagem, conforme solicitado pela coordenação. Dormi muito tarde nesta noite. Todo o hotel dormia, estava tudo escuro: erámos somente eu e a luz do meu computador. Eu estava na área externa do hotel, havia árvores e eu ouvia suas folhas balançarem. Não sei dizer o que senti ao me ver assim no meio do mundo.
Saindo e indo para outro ponto
Deixamos Piura na manhã do dia 13 (sábado), após o café que foi servido com suco de mamão papaia. Escrevia no computador e me alimentava ao mesmo tempo. Sensação boa esta! Saindo dali, a estrada nos levou até Paita, onde ficamos algumas horas para que os documentaristas da Caravana fizessem algumas imagens. Paita é uma cidade muito quente, embora margeada pelo Pacífico. No mar, muitos barcos pesqueiros; na rua, muita gente andando e as mototáxis estilizadas do Peru: uma moto adaptada como se fosse um automóvel, dispondo de uma estrutura diferente, coberta com uma capa plástica e que permite levar pelo menos duas pessoas como passageiros. Tudo isso empresta à cena urbana de Paita uma unicidade que, em mim, foi ainda mais elastecida pela ida aos Correios, que ali se chama Serviço Postal do Peru ou algo nesses termos; não lembro ao certo.
Sentada na cadeira atrás de uma mesa, estava Irma, uma senhora gentil que me alertou que, para postar carta ali, eu tinha que preencher o envelope conforme a orientação que se encontra pregada no vidro do balcão. Olhei para aonde ela apontou e estava lá, grudado, um envelope como exemplo mostrando o remetente e o destinatário escritos na frente do envelope. Como ainda não tinha visto a dica, eu estava preparando - do jeito que eu sei fazer - os meus envelopes nos quais coloquei cartões-postais, quando ela me interrompeu já com um corretivo, rasurando o envelope. Atendi ao pedido de Irma e postei algumas correspondências; no remetente, escrevi: "Sarah caminhando pelo mundo com o olho expandido e o coração aquecido".
Minha conversa com Irma cresceu e ela me perguntou de onde eu sou. Respondi: sou do Brasil e, de ônibus, estou com um grupo conhecendo nove países da América do Sul. Ela ficou espantada, quis saber quanto custa a passagem do Brasil para o Peru e me revelou que tem uma imensa vontade de conhecer o meu país, embora tenha uma irmã que more nos Estados Unidos e lhe chame constantemente para que vá pra lá. Ai, como foi bom ouvir este sentimento de Irma pelas terras brasileiras! Ela pediu para ver o dinheiro do Brasil, eu tinha uma cédula de R$b 50,00 (Cinquenta reais) na carteira. Saquei-a, ela segurou por um tempo, sentiu a nossa moeda e me devolveu. E, após um envio de cartas tão recheado de emoção, só podia sair dali fazendo uma foto de Irma segurando os meus envelopes, que agora estão em alguma parte do caminho latinoamericano, rumo ao Brasil.
Estive duas vezes no Serviço Postal do Peru. Quando fui da primeira vez, eu não tinha dinheiro para colocar tudo que eu levava em minhas mãos. Mas, como estou guardando um exemplar da moeda de cada país, fui obrigada a sacar dinheiro novamente e, assim, pude colocar mais cartas tendo como destino a Bahia. Que delícia! Coloquei-as preenchendo o envelope como ensinou Irma e, desta vez, sai dali dando-lhe dois beijinhos. Segui caminhando, olhando os arredores e vi, em Paita, uma fila grande em frente ao banco que funcionava em pleno sábado; um cara rodeado de gente fazendo, com ajuda de outro, um desses números grotescos que são comuns em feiras livres e outros espaços; vi também o mar batendo levemente na areia; construções antigas com um ar de decadência e uma mulher conversando com um homem.
Mais caminho pela frente e nosso carnaval acontece
Saimos de Paita, após o almoço, e por volta das 21 horas chegamos na saída do Peru. A escuridão reinava, pois havia faltado energia elétrica. Ali senti uma estranheza no ar, pois o local parecia clandestino: cones na estrada e homens encapuzados indicando um atalho para seguirmos. Fomos e paramos numa estrutura de metal que fazia as vezes da saída do país que tem Lima como capital. Mas só descemos do ônibus, quando a energia retornou. Todos os trâmites foram obedecidos, mais um carimbo em meu passaporte e seguimos até a entrada do Equador, onde chegamos às 21h58min.
Esta precisão na entrada em terras equatorianas só foi possível porque até o momento o Equador dispõe da única fronteira, cujo registro de acesso ao país se faz por meio de uma máquina e não através de um carimbo convencional. Ultrapassada esta passagem, chegamos depois das duas da manhã, em Machala, já no dia 14 (domingo). Machala é uma cidade muito abafada, com muitos mosquitos e com ruas alagadas pela chuva que caia. Dormimos e no outro dia, após o café, tomado em um outro hotel, seguimos até Guayaquil, onde visitamos um parque, vimos iguanas e outros animais, almoçamos num shoppping e seguimos para o hotel.
A noite do dia 14 (domingo) foi maravilhosa. Dedicamo-nos ao carnaval, ou melhor, fizemos o nosso próprio carnaval. Pegamos o sentido da rua, compramos cerveja, mas não se pode beber nas ruas de Guayaquil, o que nos fez encapuzar as garrafas em sacos de papel para consumirmos álcool, enquanto caminhávamos. Andamos, andamos e andamos pelo pier, onde há o Espaço Cultural Libertador Simón Bolivar, e alcançamos o Las Peñas, bairro muito aprazível da cidade, com casarões antigos recuperados. Em cada casa há na fachada a sua foto antes da reforma. Gostei de ver o antes e o depois de cada canto daquele.
No Las Peñas há uma escadaria com 444 degraus, com muitas lojinhas de artesanato e bares, que lembra a Escadaria da Lapa, no Rio de Janeiro, feita por Selarón, artista chileno que enfeita de azulejos a escadaria do Convento de Santa Teresa; no topo da escadaria do La Peñas, há uma igreja e um farol. Ali no meio daquela escada, nossa folia aconteceu. Bebemos, rimos, dançamos muito, alegramos as donas do bar, que adoraram ter baianos como clientes em pleno domingo de carnaval, e, quando a chuva caprichou na oferta, deixamos o bar e resolvemos nos banhar em seus pingos fortes, ao som de um delicioso reggae. Foi muito bom e, no dia 15 (segunda-feira), pegamos a estrada até Quito, onde estamos desde às 23 horas deste dia, cheios de serpentina na alma. Um beijo Salvador!
Indo além na captação
Estou certa de que tudo corre para ficar na pele. O olhar engole todas cenas que me aparecem no trajeto, e eu insisto em me dar conta do que me surge, mas aos poucos os dedos vão ficando pequenos para apanhar os ininterruptos acontecimentos. Ao mesmo tempo, a curiosidade vai se deparando com os freios postos pela própria imensidão que é registrar, na memória, o que se passa numa viagem que, em dois meses, se propõe a conhecer nove países. Quanto fôlego!
Haja assuntos, caminhos, imagens, pessoas, idéias, vegetações, seres, sabores, cheiros, proporções, estranhezas, novidades; um mundão de realidades escorrendo sem parar sobre minha percepção. Em Lima, por exemplo, foi engraçado: eu apontei meu sentimento para perceber a cidade, mas talvez a capital peruana não tenha querido se mostrar para mim. Respeitei isso, e como é necessário respeitar uma cidade! Então, sai de lá sabendo muito pouco sobre ela, e, conversando com outras pessoas, por exemplo, soube que, ao contrário do que eu havia dito, em Lima, há uma linha de metrô construída, mas praticamente sem funcionamento.
E assim me pareceu a cidade: um lugar com um funcionamento estranho. Ôps, mas ainda que eu tenha tido uma relação distante com a cidade, quero registrar mais alguns movimentos meus em seus arredores: visitei o Pucllana - Museo de Sitio Parque Histórico Cultural, um parque que guarda os vestígios de uma pirâmide em plena urbanidade limense. É um parque muito artificial, mas, de repente, me vi ali pensando sobre arqueologia, e considero que esta ciência é uma boa companhia para saber mais sobre o lugar onde a civilização Inka escreveu parte de sua história.
Outra ocorrência que eu não gostaria de deixar escapar é que em minha última noite, em Lima, vi o carro de lixo com seus homens recolhendo os dejetos da cidade. Vendo aquela cena e sentindo o aroma de lixo que se espalhava pelas entranhas da noite, me senti acessando uma certa intimidade local. E juntando arqueologia e coleta de lixo, me vi tendo uma proximidade particular com Lima. Gostei de perceber que há de desabrochar diferentes formas de contato com uma cidade.
Haja assuntos, caminhos, imagens, pessoas, idéias, vegetações, seres, sabores, cheiros, proporções, estranhezas, novidades; um mundão de realidades escorrendo sem parar sobre minha percepção. Em Lima, por exemplo, foi engraçado: eu apontei meu sentimento para perceber a cidade, mas talvez a capital peruana não tenha querido se mostrar para mim. Respeitei isso, e como é necessário respeitar uma cidade! Então, sai de lá sabendo muito pouco sobre ela, e, conversando com outras pessoas, por exemplo, soube que, ao contrário do que eu havia dito, em Lima, há uma linha de metrô construída, mas praticamente sem funcionamento.
E assim me pareceu a cidade: um lugar com um funcionamento estranho. Ôps, mas ainda que eu tenha tido uma relação distante com a cidade, quero registrar mais alguns movimentos meus em seus arredores: visitei o Pucllana - Museo de Sitio Parque Histórico Cultural, um parque que guarda os vestígios de uma pirâmide em plena urbanidade limense. É um parque muito artificial, mas, de repente, me vi ali pensando sobre arqueologia, e considero que esta ciência é uma boa companhia para saber mais sobre o lugar onde a civilização Inka escreveu parte de sua história.
Outra ocorrência que eu não gostaria de deixar escapar é que em minha última noite, em Lima, vi o carro de lixo com seus homens recolhendo os dejetos da cidade. Vendo aquela cena e sentindo o aroma de lixo que se espalhava pelas entranhas da noite, me senti acessando uma certa intimidade local. E juntando arqueologia e coleta de lixo, me vi tendo uma proximidade particular com Lima. Gostei de perceber que há de desabrochar diferentes formas de contato com uma cidade.
No altar da memória
E é tão amplo tudo que sinto! Quero dizer, colar, expor minhas colheitas, mas não há tempo suficiente para partilhar, pois minha sede de rua pede que eu não deixe escapar nada, e eu obedeço. Sou viciada em obedecê-la. A úlima vez que aqui escrevi falei sobre minha relação com Lima e sua cercania. Passados alguns dias, dei-me aos caminhos que me trouxeram até o Equador, onde o mundo se divide - ui, isso permite muitas considerações que vão ficar para outra escrita, tudo bem? Estou repleta de sensações boas de serem levadas para o altar da memória. Que delícia!
12 de fevereiro de 2010
Estranho para mim
Antes de chegar no Equador, ainda há terra para percorrermos no Peru, e desde que saímos de Lima - o que aconteceu, quinta-feira, às 5 horas da manhã - já almoçamos em Chimbote, jantamos e dormimos em Trujillo, furamos e reparamos o pneu, ontem, em Chiclayo; almoçamos, jantamos e dormimos em Piura, e só vamos encontrar a fronteira com o Equador, amanhã. Mas, mesmo com um bom punhado de tempo dedicado ao Peru, confesso que o país não me tocou.
Estranho, mas é verdade. A impressão que fica é que para o Peru se justificar como destino a ser escolhido para uma viagem, obrigatoriamente o viajante precisa inserir em seu roteiro a tão desejada Machu Picchu, o que foi impossível para a Caravana, visto que o acesso às ruínas está muito ruim, após as fortes chuvas que se abateram sobre a região de Cusco, onde se pega o trem para lá. Ou seja, saio do Peru sem ter cumprimentado a badalada construção Inka.
Bom, mas, mesmo não tendo sido tão tocada por Lima, não deixei de construir duas grandes impressões sobre a cidade, e ouso a apresentá-las: é muito comum, em virtude da herança Inka na região, você tomar o refrigerante peruano Inkacola durante o almoço, depois, caso precise passar em uma farmácia para alguma finalidade, ir à farmácia Inkafarma, e prosseguir o dia, passeando no Inka Market e tomando uma cerveja Cusqueña, no Inkabar, ou seja, "inka" parece ser um prefixo obrigatório para se nomear as coisas, em Lima. A segunda observação é que Lima é um lugar onde forma e conteúdo parecem não ter correspondência. Em minha opinião, a cidade tem o esqueleto de uma São Paulo, mas a carne de uma Feira de Santana, ou seja, há um contrasenso entre seu tamanho e seu conteúdo.
Comunico, então, que em quase quatro dias em Lima, atravessei poucas ruas, comprei alguns presentes - esta parte foi boa -, visitei o Museo de la Nacion, onde vi obras pré-hispânicas; não encontrei estrelas no céu, dancei salsa, peguei táxi, visitei o Palácio do Governo, estive na Plaza del Armas, onde há jardins lindos com flores amarelas e laranjas lhe enfeitando e a cor mostarda se destaca entre suas construções, que têm muxarabi como adereço; fiz poucas fotos, experimentei suco de milho preto, e gostei; tomei meu melhor banho de toda a viagem e ouvi muitas buzinas no trânsito. Conclusão: preciso voltar ao Peru, para atravessar mais ruas em Lima e conhecer Machu Picchu.
Estranho, mas é verdade. A impressão que fica é que para o Peru se justificar como destino a ser escolhido para uma viagem, obrigatoriamente o viajante precisa inserir em seu roteiro a tão desejada Machu Picchu, o que foi impossível para a Caravana, visto que o acesso às ruínas está muito ruim, após as fortes chuvas que se abateram sobre a região de Cusco, onde se pega o trem para lá. Ou seja, saio do Peru sem ter cumprimentado a badalada construção Inka.
Bom, mas, mesmo não tendo sido tão tocada por Lima, não deixei de construir duas grandes impressões sobre a cidade, e ouso a apresentá-las: é muito comum, em virtude da herança Inka na região, você tomar o refrigerante peruano Inkacola durante o almoço, depois, caso precise passar em uma farmácia para alguma finalidade, ir à farmácia Inkafarma, e prosseguir o dia, passeando no Inka Market e tomando uma cerveja Cusqueña, no Inkabar, ou seja, "inka" parece ser um prefixo obrigatório para se nomear as coisas, em Lima. A segunda observação é que Lima é um lugar onde forma e conteúdo parecem não ter correspondência. Em minha opinião, a cidade tem o esqueleto de uma São Paulo, mas a carne de uma Feira de Santana, ou seja, há um contrasenso entre seu tamanho e seu conteúdo.
Comunico, então, que em quase quatro dias em Lima, atravessei poucas ruas, comprei alguns presentes - esta parte foi boa -, visitei o Museo de la Nacion, onde vi obras pré-hispânicas; não encontrei estrelas no céu, dancei salsa, peguei táxi, visitei o Palácio do Governo, estive na Plaza del Armas, onde há jardins lindos com flores amarelas e laranjas lhe enfeitando e a cor mostarda se destaca entre suas construções, que têm muxarabi como adereço; fiz poucas fotos, experimentei suco de milho preto, e gostei; tomei meu melhor banho de toda a viagem e ouvi muitas buzinas no trânsito. Conclusão: preciso voltar ao Peru, para atravessar mais ruas em Lima e conhecer Machu Picchu.
10 de fevereiro de 2010
Lenço que ilumina
Sem sequência exata para a partilha do que estou vivendo, sigo no ritmo gostoso da descoberta , dançando a ciranda, que roda, roda, roda, e, freneticamente, me coloca encaixada com o ato de aprender. Hoje, ainda em Lima, me senti chamada a trazer para o Conversa da pele com o tempo, elas, as Mães da Praça de Maio, que, com uma firmeza incomparável, ensinam o mundo a acreditar na mudança positiva. Elas deslizam poderosamente em cima, embaixo, atrás; enfim, em todos os lados da palavra "crença". E, quando pergutamos, se seus filhos aparecessem, elas encerrariam a caminhada, elas, com uma energia vulcância, dizem: "de jeito nenhum; claro que continuaremos a caminhar, pois o que buscamos é o câmbio político".
9 de fevereiro de 2010
A bagunça boa da memória
Numa viagem em que tudo se converte em caminho, e os caminhos viram história, e a história vira palavra, que vira fotografia, que vira registro e se faz lembrança viva, as narrativas não conseguem seguir a ordem como ocorrem os acontecimentos. Um mosaico de episódios se estrutura na memória, as células assimilam o que conseguem e o tempo vai dando conta de emoldurar as telas mais marcantes. Estou sentindo isso na pele. Para escrever sobre Lima, por exemplo, falei das cidades de Puno e Arequipa, cujas fotos deveriam ter sido colocadas antes do texto sobre a capital do Peru. Quando me dei conta, ficou Lima lá embaixo e as fotos mais em cima. Hum! Mas, desconfio que isso não tem a menor importância, o que importa mesmo é viver Puno, Arequipa e Lima, e tudo estar em mim, reunido numa mistura que produz um sumo delicioso: o sumo da vida expandida. Eu gosto!
8 de fevereiro de 2010
Rápidas impressões sobre Lima
Com os dois pés na cidade de Lima, vou me interessando por esta terra, com nome de fruta, onde vivem mais de 8 milhões de habitantes. Para minha surpresa, eles não contam com metrô para se deslocarem. Além disso, os ônibus também não ajudam muito. A frota é feita de modelos muito antigos, e todos os pequenos coletivos passam lotados de gente. Solução: uso constante de táxis, os quais não custam caro e não dispõem de taxímetro; as corridas são acertadas antes do embarque do passageiro.
Mas, calma, porque é claro que a capital do Peru não se reduz a um conjunto de ônibus cheios, que não param de colocar pessoas dentro, somado a um mundaréu de táxis cortando intensamente a cidade. Prova disso: da entrada de Lima até o hotel onde estamos hospedados, em Miraflores - região muito agradável da cidade - gastamos aproximadamente três horas. Logo, nota-se o quanto a capital peruana é extensa. Haja pernas para percorrê-la! Ah, além deste dado inicial sobre a cidade, é bom saber que o milho cultivado em terras peruanas tem grãos bastante gordos e podem ser de muitas cores, inclusive, negros. Portanto, a comida servida em Lima traz curiosidades.
Mas, enquanto a capital do Peru vai se revelando para mim, lembro que antes de chegarmos aqui, passamos por Puno, onde dormimos no último dia 05. Aquela foi uma sexta-feira de festa na cidade, pois estava acontecendo o ensaio dos grupos de carnaval que se apresentariam no domingo. E como foi bom conhecer outro modo de carnavalizar a vida! Fazia um frio imenso em Puno, e todas as ruas do centro estavam tomadas por homens e mulheres que dançam o Caporales, dança popular que tem relação com o período escravocrata.
Uma ala feminina e outra masculina dançam todo o tempo embaladas por uma mesma música executada por um grupo de sopro. A esta sonoridade os homens-dançarinos acrescentam o barulho de suas botas, nas quais se encontra pequenas rodinhas de metal chamadas cascavel, numa alusão à figura do capataz, do período do trabalho escravo. Além de Puno, saindo da Bolívia para o Peru, passamos em Arequipa, local do nosso almoço do sábado, e em Chala, onde está o hotelzinho de beira de estrada já comentado anteriormente, onde dormimos contornados pelo Pacífico. Eita sono que me revigorou, meu Deus!
Mas, calma, porque é claro que a capital do Peru não se reduz a um conjunto de ônibus cheios, que não param de colocar pessoas dentro, somado a um mundaréu de táxis cortando intensamente a cidade. Prova disso: da entrada de Lima até o hotel onde estamos hospedados, em Miraflores - região muito agradável da cidade - gastamos aproximadamente três horas. Logo, nota-se o quanto a capital peruana é extensa. Haja pernas para percorrê-la! Ah, além deste dado inicial sobre a cidade, é bom saber que o milho cultivado em terras peruanas tem grãos bastante gordos e podem ser de muitas cores, inclusive, negros. Portanto, a comida servida em Lima traz curiosidades.
Mas, enquanto a capital do Peru vai se revelando para mim, lembro que antes de chegarmos aqui, passamos por Puno, onde dormimos no último dia 05. Aquela foi uma sexta-feira de festa na cidade, pois estava acontecendo o ensaio dos grupos de carnaval que se apresentariam no domingo. E como foi bom conhecer outro modo de carnavalizar a vida! Fazia um frio imenso em Puno, e todas as ruas do centro estavam tomadas por homens e mulheres que dançam o Caporales, dança popular que tem relação com o período escravocrata.
Uma ala feminina e outra masculina dançam todo o tempo embaladas por uma mesma música executada por um grupo de sopro. A esta sonoridade os homens-dançarinos acrescentam o barulho de suas botas, nas quais se encontra pequenas rodinhas de metal chamadas cascavel, numa alusão à figura do capataz, do período do trabalho escravo. Além de Puno, saindo da Bolívia para o Peru, passamos em Arequipa, local do nosso almoço do sábado, e em Chala, onde está o hotelzinho de beira de estrada já comentado anteriormente, onde dormimos contornados pelo Pacífico. Eita sono que me revigorou, meu Deus!
7 de fevereiro de 2010
Primeiras horas no Peru
Dias que passam com sabor novo, sono que chega após o cansaço, e a sede de conhecer cada pedaço de tudo cresce sem cessar dentro de mim. Por isso, eu grito: estou muito ampliada e certa de que nosso continente é lindo! Há dois dias navegamos o Lago de Titicaca, lago de maior altitude do mundo, e muito mais fizemos desde que escrevi aqui. Não posso deixar de dizer que é um alimento d'alma cumprimentar suas águas. Recomendo, e como recomendo!
Já estamos no Peru, após uma saída suave e engradecedora da Bolívia, lugar que me fez um apelo reflexivo sem igual até aqui. Nenhum outro país me deixou tão chamada a leituras de cunho de todas as ordens, como a terra que tem "duas" capitais: La Paz como a capital administrativa e legislativa, e Sucre como a capital jurídica. Após a passagem por algumas localidades bolivianas, meu diário de bordo ficou ainda mais recheado de anotações e me pedindo atenção. Inclusive, informo que já esgotei uma cadernetinha e inaugurei outra. Que maravilha preencher folhas em branco com palavras que me ensinam e me tocam!
Agora, escrevo de um hotelzinho de beira de estrada, na cidade peruana de Chala. Estamos à espera do café da manhã, olhando para o Pacífico. Que luxo! Cruzamos novamente esta novidade de oceano. Desde ontem, nosso contato com suas águas foi retomado, mas, desta vez, sem chance para banho. Do ônibus, o vimos, quando adentramos a rodovia Panamericana, que é uma loucura de estrada: 48 mil quilômetros, mas pegamos somente um trecho. E que trecho! Estreito, com túneis e beirando o mar. O cheiro de maré completa o visual que encanta e assusta ao mesmo tempo.
Nesta viagem, as estradas são um capítulo a mais em minhas observações, que agora precisam ser recolhidas, pois o café chegou. Como sempre, nescafé, pois é assim que nos servem em todos os lugares por onde passamos. Ai que vontade de tomar café de café, como diz minha amiga Aidil.
Já estamos no Peru, após uma saída suave e engradecedora da Bolívia, lugar que me fez um apelo reflexivo sem igual até aqui. Nenhum outro país me deixou tão chamada a leituras de cunho de todas as ordens, como a terra que tem "duas" capitais: La Paz como a capital administrativa e legislativa, e Sucre como a capital jurídica. Após a passagem por algumas localidades bolivianas, meu diário de bordo ficou ainda mais recheado de anotações e me pedindo atenção. Inclusive, informo que já esgotei uma cadernetinha e inaugurei outra. Que maravilha preencher folhas em branco com palavras que me ensinam e me tocam!
Agora, escrevo de um hotelzinho de beira de estrada, na cidade peruana de Chala. Estamos à espera do café da manhã, olhando para o Pacífico. Que luxo! Cruzamos novamente esta novidade de oceano. Desde ontem, nosso contato com suas águas foi retomado, mas, desta vez, sem chance para banho. Do ônibus, o vimos, quando adentramos a rodovia Panamericana, que é uma loucura de estrada: 48 mil quilômetros, mas pegamos somente um trecho. E que trecho! Estreito, com túneis e beirando o mar. O cheiro de maré completa o visual que encanta e assusta ao mesmo tempo.
Nesta viagem, as estradas são um capítulo a mais em minhas observações, que agora precisam ser recolhidas, pois o café chegou. Como sempre, nescafé, pois é assim que nos servem em todos os lugares por onde passamos. Ai que vontade de tomar café de café, como diz minha amiga Aidil.
3 de fevereiro de 2010
Ela pede tempo para ser percebida
Com signos desconexos, que dão as mãos para produzirem aquilo que ainda será conhecido; movimentos sociais campesinos, que, para ecoarem o grito, interrompem estradas e acionam a voz, além de uma vastidão de tecidos bonitos enfeitando todas as mesas que avistamos, e muitos séculos se encontrando nas ruas da sua capital, onde há trânsito caótico e praças muito povoadas, a Bolívia pede tempo para ser percebida. Anuncio que para ser sentida e traduzida, a Bolívia recomenda a um viajante: retinas mais largas, coração atento e uma dose de utopia na bagagem. É impossível, a partir da captura solta e despretensiosa do olhar, emitir qualquer opinião sobre este fascinante país. Careço, portanto, de um punhado de dias a mais para ousar traçar idéias sobre este lugar tão repleto de singularidades.
Ano passado, uma nova constituição foi promulgada e a República da Bolívia passou a se chamar Estado Plurinacional da Bolívia, e, por isso, hoje, em todos os prédios públicos, há um mastro a mais, para sustentar a linda bandeira de inúmeras cores que representa os povos indígenas. É muito, muito tocante ver esta bandeira estendida e ecoando versos de sabedoria por toda a cidade de La Paz, por exemplo. Deparar-se com ela é esperançoso, gostoso, bonito, enche nosso peito de admiração e vontade de saber mais sobre o povo boliviano, sobre as línguas aymara e quéchua.
Na presidência, um índio. Viva! Estou falando de Evo Morales, que tem uma enorme aceitação popular e montou ministérios voltados à construção de uma identidade boliviana que verdadeiramente abarque os indígenas. Um dos ministérios é o da Descolonização. Nota-se, então, que a Bolívia vive um processo de transformação que requer uma pesquisa mais detida para ser compreendido. Logo, estando na Bolívia, a curiosidade, sem dúvida, é uma ótima companhia. Tudo, absolutamente tudo, chama atenção, nos convoca para a observação.
Até o momento, passamos por San Cristóbal, pequeno lugarejo onde dormimos a caminho da capital boliviana; por Potosí, cidade que já foi um grande centro produtor de prata, tendo sido no século XVII uma das cidades mais ricas do mundo, mas hoje demonstra em sua fisionomia uma decandência que nos coloca em contato com os danos que os colonizadores fizeram à América do Sul, e por La Paz, onde as cores nos convidam para nos vestir de amarelo, vermelho, azul, lilás; há locais em que as mãos sentem vontade de tocar, pois algumas ruas do centro são puro artesanato, e nas alturas há casas que nos instalam a pergunta: como as pessoas conseguem descer de lá?
Embalada por esta e tantas outras perguntas, registro em minha pele a delícia de estar na Bolívia. Vou dormir querendo tragá-la completamente.
Ano passado, uma nova constituição foi promulgada e a República da Bolívia passou a se chamar Estado Plurinacional da Bolívia, e, por isso, hoje, em todos os prédios públicos, há um mastro a mais, para sustentar a linda bandeira de inúmeras cores que representa os povos indígenas. É muito, muito tocante ver esta bandeira estendida e ecoando versos de sabedoria por toda a cidade de La Paz, por exemplo. Deparar-se com ela é esperançoso, gostoso, bonito, enche nosso peito de admiração e vontade de saber mais sobre o povo boliviano, sobre as línguas aymara e quéchua.
Na presidência, um índio. Viva! Estou falando de Evo Morales, que tem uma enorme aceitação popular e montou ministérios voltados à construção de uma identidade boliviana que verdadeiramente abarque os indígenas. Um dos ministérios é o da Descolonização. Nota-se, então, que a Bolívia vive um processo de transformação que requer uma pesquisa mais detida para ser compreendido. Logo, estando na Bolívia, a curiosidade, sem dúvida, é uma ótima companhia. Tudo, absolutamente tudo, chama atenção, nos convoca para a observação.
Até o momento, passamos por San Cristóbal, pequeno lugarejo onde dormimos a caminho da capital boliviana; por Potosí, cidade que já foi um grande centro produtor de prata, tendo sido no século XVII uma das cidades mais ricas do mundo, mas hoje demonstra em sua fisionomia uma decandência que nos coloca em contato com os danos que os colonizadores fizeram à América do Sul, e por La Paz, onde as cores nos convidam para nos vestir de amarelo, vermelho, azul, lilás; há locais em que as mãos sentem vontade de tocar, pois algumas ruas do centro são puro artesanato, e nas alturas há casas que nos instalam a pergunta: como as pessoas conseguem descer de lá?
Embalada por esta e tantas outras perguntas, registro em minha pele a delícia de estar na Bolívia. Vou dormir querendo tragá-la completamente.
2 de fevereiro de 2010
Tomada por variadas sensações
Sumi porque as emoções, desta vez, foram incríveis constelações se desabrochando lentamente pelas estradas. E foram muitas e de diversas nuances. Houve frio, fome, chuva, distâncias enormes sem um posto de combustível sequer, posto sem diesel para vender, dor de cabeça causada pela altitude da cidade de Potosí, já na Bolívia, e que está a 4.090 metros acima do nível do mar; dias sem tomar banho, vias com muita lama, quilômetros e quilômetros de estrada de chão, caminhos errados, llamas nos arredores, vulcão, caronas para bolivianos, engarrafamento, conversa deliciosa com Ada e Simón, cidadaõs bolivianos ligados a um movimento social sobre o qual comento depois e que interrompeu uma das vias por onde nosso ônibus precisava passar. Enfim, variadas descobertas em ritmo de vivência intensa. Desde às 4 horas da manhã da quinta-feira passada até hoje, às 2h30 da manhã, nos dedicamos a percorrer o caminho entre Santiago e La Paz. Sim, foram cinco dias de viagem. E entre uma capital e outra? o gigantesco e impressionante Deserto do Atacama, onde vi o sol se pôr, a lua nascer e depois o sol nascer: simplesmente maravilhoso o que experimentei. Além disso, cumprimentei o Oceano Pacífico, onde me banhei e rezei. Que água gelada! Mas, que emoção tomar banho em outro mar que não do Atlântico. Falo do deserto e também do oceano para mostrar a variedade de sensações que me tomou em cinco dias. Estou transbordando de assuntos, e isso me deixa alucinadamente feliz. Adoro ter o que contar.
27 de janeiro de 2010
Um novelo de emoções que não quero perder
São muitas vivências colecionadas em menos de 20 dias de viagem. Capturas que nem sempre consigo depositar neste espaço onde procuro partilhar minhas emocionantes descobertas. Desde que sai de Salvador, sou puro acúmulo de experiências sensacionais e que me convidam a pensar, sentir, escolher, caminhar, tocar, saber mais de mim e da América Latina. Não cessa de chegar informação, sentidos novos, afeto bom pelos companheiros e companheiras da Caravana. Já sonhei em espanhol; já pus roupa para lavar na lanvanderia; conversei com ativistas na praça; comprei livros, discos e artesanato; comi trigo com pêssego, ou seja, o tradicional "mote" que faz parte da cozinha chilena; pirei na Cordilheira dos Andes; tomei banho em banheira e adorei Montevidéu. Sua forma de se fazer lugar, endereço, mundo habitado transmite uma imensa sensação de bem-estar. A cidade é uma delícia, e todos nós adoramos conhecê-la. A correria da Caravana, no entanto, não me deixou ser atenciosa com Montevidéu, no que se refere à produção de texto, embora eu tenha escrito sobre suas características em meu diário de bordo. Contudo, não cheguei a publicar aqui. Faço isso agora, aproveitando o rastro das palavras dedicadas para Santiago, pois quero sentir que falei de Montevidéu, que dei-lhe a atenção merecida. Ôps! Mas, ainda me sinto em débito com as Mães da Praça de Maio; o Conflito das Papeleiras; a sensação de ter cruzado, de uma ponta a outra, o Uruguai, pois sua extensão territorial equviale a do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil; a viagem de 29 horas que fizemos de Buenos Aires para Santiago, sem parar um instante sequer para dormir; os lindos caminhos entre os países e que são repletos de inéditas imagens - para se ter uma noção: da Argentina para o Chile, dormi em alguns trechos, mas, quando acordava e olhava da janela do ônibus, me deparava com cenas arrebatadoras de tão belas, cenas que chegam a parecer aquelas impressas nas folhinhas, ou seja, paisagens que nós duvidamos que existam. Bom, são muitas colheitas e confesso que ainda estão fora deste blog: fotos feitas para mostrar as cidades, algumas narrativas sobre comidas e cheiros, texto sobre o ótimo entrosamento do grupo, conversas inteligentes tidas dentro do ônibus, as minuciosas exigências das fronteiras - ah, mais uma vez, agora, para entrar no Chile - esvaziamos todo o ônibus e nossas bagagens foram fiscalizadas pelos agentes. São mesmo muitas falas querendo brotar. Vamos que vem mais por aí.
26 de janeiro de 2010
Sobre Montevidéu, escrito no último dia 19, quando lá eu estava
Meu banho hoje aconteceu antes das 7 horas da manhã. Chovia e um friozinho começava a pairar sobre nossas cabeças. Muito boa a sensação de refresco que chegou com o dia chuvoso, pois estava escaldante o sol da segunda-feira. Acordei muito cedo porque hoje será um dia de agenda cheia. Temos compromissos em várias instituições relacionadas ao Mercosul - experiência latina de integração regional, que se apresenta como um espaço voltato ao mercado comum e tem como países membros a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai.
Como somos muitos caravaneiros, a fila do banheiro incha e é algo a ser enfrentado, sobretudo, neste hostel onde estamos hospedados, pois a quantidade de banheiros é mínima. Trata-se do Che Lagarto, um hostel charmoso, com uma decoração bastante agradável e muito bem localizado. Para se hospedar em um dos seus aposentos, paga-se uma diária que varia entre U$ 18 e U$ 45, e preferencialmente é preciso dispor da moeda local, que é o peso uruguaio, pois não se aceita nenhum tipo de cartão de crédito ou de débito, e o troco, quando o hóspede efetua o pagamento em dólar, normalmente é feito na moeda uruguaia. Convém saber que um peso uruguaio vale aproximadamente R$ 12,00 (Doze reais).
Estamos no centro de Montevidéu, na Praça da Independência, onde uma das coisas mais gostosas de se fazer é apreciar as pessoas sentadas em seus bancos batendo um papo solto; dá uma idéia de cidade onde a interação é fervente e a tranquilidade tem seu lugar garantido, o que se confirma na prática. Afinal, ontem, em minha longa caminhada pela Calle 18 de Julho, uma das principais vias da cidade, fui abordada por algumas pessoas, todas muito gentis e sorridentes.
Ôps! São inúmeras as faces se mostrando em cada nova esquina, e eu preciso de técnicas para catalogar todas as emoções vividas. Ontem, conhecemos a Universidad del Republica, a única universidade pública do Uruguai, onde existem 80 mil estudantes matriculados. A Universidad tem espaço para todos que querem ingressar no ensino superior. É um verdadeiro show de inserção social! Todos nós ficamos boquiabertos.
Além dessa surpreendente descoberta no campo da educação, descobri também que, em Montevidéu, o salário mínimo é aproximadamente R$ 700,00 (Setecentos reais); a coca-cola é muito cara; as praças são frequentadas; as fachadas das casas são coloridas; a água mineral é vendida em garrafa de vidro, e não de plástico; as mulheres se vestem à vontade, abrem mão do salto e recorrem à mochila para transportarem seus pertences; as árvores contornam a margem das ruas; as farmácias existem em um número que não incomoda; há muitas livrarias; os prédios são belíssimos; os táxis são de cor preta e a maioria é Corsa, da Chevrolet; há lugares que lembram Madrid; o cumprimento entre um homem e uma mulher e entre duas mulheres é feito dando-se apenas um beijo de um dos lados do rosto; as calçadas são muito largas, onde é possível caminhar sem disputar o chão com os veículos, e existem 15 milhões de cabeças de gado no País , cinco vezes mais o número de habitantes, que é pouco mais de três milhões.
De um modo geral, os clássicos traços arquitetônicos de Montevidéu convivem muito bem com a atmosfera moderna que a cidade foi agregando à sua estrutura, de maneira que a qualquer momento seus olhos podem bater numa moldura bem trabalhada de uma robusta porta de madeira, numa varanda com lindas flores coloridas ou num edifício de estética contemporânea, com janelas de vidro de modelo recente. Enfim, Montevidéu é um convite à apreciação calma, e, como em suas calles há muito mais livrarias do que farmácias, arrisco dizer que na capital do Uruguai vive um povo mais criativo e menos doente.
Como somos muitos caravaneiros, a fila do banheiro incha e é algo a ser enfrentado, sobretudo, neste hostel onde estamos hospedados, pois a quantidade de banheiros é mínima. Trata-se do Che Lagarto, um hostel charmoso, com uma decoração bastante agradável e muito bem localizado. Para se hospedar em um dos seus aposentos, paga-se uma diária que varia entre U$ 18 e U$ 45, e preferencialmente é preciso dispor da moeda local, que é o peso uruguaio, pois não se aceita nenhum tipo de cartão de crédito ou de débito, e o troco, quando o hóspede efetua o pagamento em dólar, normalmente é feito na moeda uruguaia. Convém saber que um peso uruguaio vale aproximadamente R$ 12,00 (Doze reais).
Estamos no centro de Montevidéu, na Praça da Independência, onde uma das coisas mais gostosas de se fazer é apreciar as pessoas sentadas em seus bancos batendo um papo solto; dá uma idéia de cidade onde a interação é fervente e a tranquilidade tem seu lugar garantido, o que se confirma na prática. Afinal, ontem, em minha longa caminhada pela Calle 18 de Julho, uma das principais vias da cidade, fui abordada por algumas pessoas, todas muito gentis e sorridentes.
Ôps! São inúmeras as faces se mostrando em cada nova esquina, e eu preciso de técnicas para catalogar todas as emoções vividas. Ontem, conhecemos a Universidad del Republica, a única universidade pública do Uruguai, onde existem 80 mil estudantes matriculados. A Universidad tem espaço para todos que querem ingressar no ensino superior. É um verdadeiro show de inserção social! Todos nós ficamos boquiabertos.
Além dessa surpreendente descoberta no campo da educação, descobri também que, em Montevidéu, o salário mínimo é aproximadamente R$ 700,00 (Setecentos reais); a coca-cola é muito cara; as praças são frequentadas; as fachadas das casas são coloridas; a água mineral é vendida em garrafa de vidro, e não de plástico; as mulheres se vestem à vontade, abrem mão do salto e recorrem à mochila para transportarem seus pertences; as árvores contornam a margem das ruas; as farmácias existem em um número que não incomoda; há muitas livrarias; os prédios são belíssimos; os táxis são de cor preta e a maioria é Corsa, da Chevrolet; há lugares que lembram Madrid; o cumprimento entre um homem e uma mulher e entre duas mulheres é feito dando-se apenas um beijo de um dos lados do rosto; as calçadas são muito largas, onde é possível caminhar sem disputar o chão com os veículos, e existem 15 milhões de cabeças de gado no País , cinco vezes mais o número de habitantes, que é pouco mais de três milhões.
De um modo geral, os clássicos traços arquitetônicos de Montevidéu convivem muito bem com a atmosfera moderna que a cidade foi agregando à sua estrutura, de maneira que a qualquer momento seus olhos podem bater numa moldura bem trabalhada de uma robusta porta de madeira, numa varanda com lindas flores coloridas ou num edifício de estética contemporânea, com janelas de vidro de modelo recente. Enfim, Montevidéu é um convite à apreciação calma, e, como em suas calles há muito mais livrarias do que farmácias, arrisco dizer que na capital do Uruguai vive um povo mais criativo e menos doente.
Gostosa forma de gastar as sandálias
Muito saboroso cansar os pés andando pelas ruas de Santiago. A cidade, que tem uma temperatura muito agradável, pois, no verão, o sol quente é amenizado pelo vento frio que a alta atitude dos Andes produz, presta-se a comunicar jovialidade, transmitir poesia e emitir uma performance elegante e doce. Acolhedora, Santiago me encanta com um carinho bom de ser sentido.
A impressão que tenho é que nela tudo funciona. Nada parece demandar muito trabalho ou grande desprendimento de energia. Tudo simplesmente flui. Assim parece o trânsito, embora haja alguns períodos do dia com engarrrafamentos, os motoristas comandem o volante com uma alta velocidade e as sinaleiras abram de um modo que é possível o carro passar justo por onde o pedestre está atravessando - acreditem - mas, ele haverá de ter sempre prioridade na travessia.
Seus ônibus são mais novos do que os de Buenos Aires, há metrô, com trens conservados e limpos, parando em estações bonitas que dão espaço para a arte. Há, por exemplo, uma exposição sobre a fotografia do Chile, na estação Plaza de Armas, que nos deixa perto da Praça do mesmo nome, onde a única arma é a liberdade. Pintores, atores, vendedores de postais ocupam seu centro, fazendo do seu bélico título outra coisa, outra substância.
Em Santiago, há inúmeros bares estilosos - acredito que sentar numa mesa, tomar algo, de preferência pisco, um delicioso arguadente feito de uva e que é produzido no País, é um programa corriqueiro na vida de quem mora na capital do Chile, onde vive um povo bastante atencioso. Estou hospedada no Bed & Breakfast W.Noon, um abrigo muito charmoso e aconchegante, no bairro da Providência, região de Santiago com ótimo astral, onde é possível encontrar lavanderia, padaria, pubs, farmácias, além de dispor de uma estação de metrô. Sinto-me em casa. No W.Noon, o café da manhã é simples, mas a cozinha é nossa, o que suaviza o senso de impessoalidade que costuma configurar os hotéis.
Seu proprietário espalha gentileza. Hoje, me ofereceu vinho e degustei mais uma vez um dos produtos mais apreciados do Chile. Ele é arquiteto e também pinta telas, as quais compõem a decoração do seu empreendimento, que conta com uma pequena biblioteca, banheiros claros e com banheira, quartos harmoniosos e uma linda fachada feita com preciosos traços clássicos. Para completar, está situado numa rua delicada, com casas muito fofinhas.
Estando em Santiago, a alma cresce, porque além da Cordilheira ser um convite à expansão dos nossos sentimentos, aqui se encontra uma das casas onde viveu Pablo Neruda. A história que esta habitação guarda é de uma lindeza de fazer chorar. A residência foi construída, em 1953, e recebeu o nome de La Chascona em homenagem à Matilde Urrutia, o grande amor da sua vida.
E é o amor quem explica a estrutura da casa, pois trata-se de uma construção, com forte inspiração no mar, e que está distribuída em duas partes: uma delas é estreita, apertada, com pouquíssima ventilação e estes aspectos estão associados ao período em que o casal mantinha em segredo o belo romance que tomou os seus corações. O sigilo durou de 1946 a 1955; os dois inicialmente levaram um relacionamento às escondidas porque Neruda ainda era casado com sua segunda companheira, quando se envolveu com Matilda. O curioso é que a outra parte da casa é espaçosa, mais ventilada, mais colorida e foi erguida exatamente quando o amor entre Neruda e Matilda, em 1955, ganhou a liberdade para ser mostrado para o mundo. Conclusão: o amor, quando escondido, acaba por ficar reduzido, curto, incomôdo. Por esta razão, salvemos o amor, o façamos inteiro e não aos pedaços. Que o amor seja demasiadamente explícito, que goze de plenitude e esbanje beijos, calores, fogo, inspiração. Após visitar a La Chascona, só posso dizer que conheci a casa-amor, o amor-casa do ilustre Senhor Pablo Neruda, o que me deixou ainda mais amante e desejosa do amor, que é, para mim, a grande mola da vida. Amemos e sejamos amados!
25 de janeiro de 2010
A delícia de ser engolida
Eis que meus olhos alcançam a Cordilheira dos Andes! A vontade de gritar me visita. Respiro, suspiro, percebo e emito, para mim, em silêncio e profundamente: que fascínio de lugar, meu Deus!
Fico sabendo que estamos a 3.500 metros acima do nível do mar. O coração acelera. A palavra que vem em minha cabeça? imensidão. Olho para os lados, checo tudo em minha volta; tudo é altura.
Não me rendo à nenhuma tentativa de pergunta, simplesmente contemplo, saboreio, mastigo. Alcanço a apreciação, o susto, o medo, as cores desconhecidas, as texturas impensadas, a temperatura gelada, o céu muito azul e sinto vontade de que mais gente veja toda aquela beleza.
Sinto-me dentro da mãe terra. A montanha me engole todinha. Caminhões, ônibus, carros e as poucas construções que existem tornam-se miudezas como as de uma maquete. Há pedras, pequenos riachos, um tom novo de marrom, o branco da neve fazendo cobertura para os picos.
Localizo um jogo de luz e sombra, enlouqueço com o que vejo, transporto-me para não sei onde. Tudo é incrível de ver e de sentir. Os registros fotográficos não dão conta da grandiosidade e, mesmo não querendo, a pergunta me atinge: o que a mãe natureza viveu para alcançar este formato geográfico?
Fico sabendo que estamos a 3.500 metros acima do nível do mar. O coração acelera. A palavra que vem em minha cabeça? imensidão. Olho para os lados, checo tudo em minha volta; tudo é altura.
Não me rendo à nenhuma tentativa de pergunta, simplesmente contemplo, saboreio, mastigo. Alcanço a apreciação, o susto, o medo, as cores desconhecidas, as texturas impensadas, a temperatura gelada, o céu muito azul e sinto vontade de que mais gente veja toda aquela beleza.
Sinto-me dentro da mãe terra. A montanha me engole todinha. Caminhões, ônibus, carros e as poucas construções que existem tornam-se miudezas como as de uma maquete. Há pedras, pequenos riachos, um tom novo de marrom, o branco da neve fazendo cobertura para os picos.
Localizo um jogo de luz e sombra, enlouqueço com o que vejo, transporto-me para não sei onde. Tudo é incrível de ver e de sentir. Os registros fotográficos não dão conta da grandiosidade e, mesmo não querendo, a pergunta me atinge: o que a mãe natureza viveu para alcançar este formato geográfico?
24 de janeiro de 2010
De Buenos Aires para o Chile
O caminho cresce e vamos nós para o Chile, terra do grande Pablo Neruda. Estou ansiosa e fazendo uma oração para que a poesia me visite desnudada e leve, em Santiago, e lá eu seja a captadora de vida em forma de verso. Adoro estar nesta posição, na posição de quem ganha o mundo, através da palavra que brota da ocorrência dos dias. Afinal, trata-se de uma posição que amplia quem somos. E como é maravilhoso ser mais um pouco, ir além, cruzar a linha!
Bom, daqui a mais ou menos uma hora vamos mais uma vez entrar no ônibus e ultrapassar mais outra fronteira. Será a divisa entre a Argentina e o Chile. Estou adorando adentrar os territórios nacionais pelo chão e não pelo céu. É um jeito curioso de se chegar a um país. A fronteira parece uma terra sem chance para os elos. Afinal, é simplesmente uma via. Estando nelas, me ponho a pensar no que significa passagem, trânsito, intermédio. E como a vida reúne tanto destes componentes, sendo ela, a vida, uma aventura sem grandes certezas!
Foram três dias em Buenos Aires, uma grande metropóle, com ruas largas e agitadas. Para chegar aqui, alcançamos um evento histórico: conseguimos percorrer um caminho que há três anos está interditado por um movimento ambientalista, localizado logo depois da fronteira entre o Uruguai e a Argentina. O corte da estrada, como eles chamam, é para protestar contra a montagem de uma indústria de papel, em terras uruguaias, e que contamina as águas do Rio da Prata. Trata-se do pouco conhecido Conflito das Papeleiras. Ao me deparar com este acontecimento, chegou mais uma vez em mim a sensação de que pouco sabemos da América Latina, das suas lutas e buscas.
Encontrar com este conflito foi uma experiência muito tocante, pois as donas de casa, senhoras com mais de 60 anos que, sentadas em cadeiras de praia, se instalam na passagem, impedindo que se siga para adiante - de modo que os veículos que buscam esta rota, voltam para trás e precisam procurar outra alternativa de acesso à Argentina - têm uma generosidade incrível. Sabendo da nossa viagem, num ônibus, saindo da Bahia até a Venezuela, para estudar a integração da América Latina, visitando nove países da América do Sul, não só permitiram nossa passagem, como nos conividou para conhecermos a cidade onde vivem e que se chama Gualeguaychu.
Uma charmosa cidade com 80 mil habitantes e com oferta de aprazíveis passeios de barco, que não fizemos em virtude do pouco tempo que temos para tudo. Em Gualeguaychu, almoçamos, eu não abri mão de tomar um vinho e fomos guiados pelas ruas por Jorge, um dos militantes do movimento, que fala com os olhos brilhando sobre a luta contra a indústria de papel. A noite em que dormimos em Gualeguaychu coincidiu com a assembléia do movimento. Não só participamos da assembléia, como fomos aplaudidos, por sermos estudantes brasileiros conhecendo a América Latina. Ficamos arrepiados.
Para falar do encontro com o Conflito das Papeleiras, preciso de mais tempo e espaço, matérias que estou sem, neste momento, pois preciso tomar café e apanhar minha bagagem no quarto. Tenho os dedos em contato com as teclas e o pensamento movendo-se, junto com o coração, para querer contar tudo que me chegou em terras argentinas. Não posso sair daqui sem dizer que nos encontramos com as Mães da Praça de Maio, no final da tarde de quinta-feira. Foi muito emocionante. Meus olhos viram senhoras com mais de 85 anos esbanjando uma vontade linda de viver e de mudar o mundo. E meus olhos estão simplesmente muito impressionados com esta visão. Trata-se de uma semente que encanta e enche o peito de esperança.
Bom, daqui a mais ou menos uma hora vamos mais uma vez entrar no ônibus e ultrapassar mais outra fronteira. Será a divisa entre a Argentina e o Chile. Estou adorando adentrar os territórios nacionais pelo chão e não pelo céu. É um jeito curioso de se chegar a um país. A fronteira parece uma terra sem chance para os elos. Afinal, é simplesmente uma via. Estando nelas, me ponho a pensar no que significa passagem, trânsito, intermédio. E como a vida reúne tanto destes componentes, sendo ela, a vida, uma aventura sem grandes certezas!
Foram três dias em Buenos Aires, uma grande metropóle, com ruas largas e agitadas. Para chegar aqui, alcançamos um evento histórico: conseguimos percorrer um caminho que há três anos está interditado por um movimento ambientalista, localizado logo depois da fronteira entre o Uruguai e a Argentina. O corte da estrada, como eles chamam, é para protestar contra a montagem de uma indústria de papel, em terras uruguaias, e que contamina as águas do Rio da Prata. Trata-se do pouco conhecido Conflito das Papeleiras. Ao me deparar com este acontecimento, chegou mais uma vez em mim a sensação de que pouco sabemos da América Latina, das suas lutas e buscas.
Encontrar com este conflito foi uma experiência muito tocante, pois as donas de casa, senhoras com mais de 60 anos que, sentadas em cadeiras de praia, se instalam na passagem, impedindo que se siga para adiante - de modo que os veículos que buscam esta rota, voltam para trás e precisam procurar outra alternativa de acesso à Argentina - têm uma generosidade incrível. Sabendo da nossa viagem, num ônibus, saindo da Bahia até a Venezuela, para estudar a integração da América Latina, visitando nove países da América do Sul, não só permitiram nossa passagem, como nos conividou para conhecermos a cidade onde vivem e que se chama Gualeguaychu.
Uma charmosa cidade com 80 mil habitantes e com oferta de aprazíveis passeios de barco, que não fizemos em virtude do pouco tempo que temos para tudo. Em Gualeguaychu, almoçamos, eu não abri mão de tomar um vinho e fomos guiados pelas ruas por Jorge, um dos militantes do movimento, que fala com os olhos brilhando sobre a luta contra a indústria de papel. A noite em que dormimos em Gualeguaychu coincidiu com a assembléia do movimento. Não só participamos da assembléia, como fomos aplaudidos, por sermos estudantes brasileiros conhecendo a América Latina. Ficamos arrepiados.
Para falar do encontro com o Conflito das Papeleiras, preciso de mais tempo e espaço, matérias que estou sem, neste momento, pois preciso tomar café e apanhar minha bagagem no quarto. Tenho os dedos em contato com as teclas e o pensamento movendo-se, junto com o coração, para querer contar tudo que me chegou em terras argentinas. Não posso sair daqui sem dizer que nos encontramos com as Mães da Praça de Maio, no final da tarde de quinta-feira. Foi muito emocionante. Meus olhos viram senhoras com mais de 85 anos esbanjando uma vontade linda de viver e de mudar o mundo. E meus olhos estão simplesmente muito impressionados com esta visão. Trata-se de uma semente que encanta e enche o peito de esperança.
23 de janeiro de 2010
Falando
Meu computador apresentou um problema, e eu estou impossibilitada de usá-lo para escrever no blog e fazer outras coisitas que dependem de acesso à internet. Isto está me deixando um pouco fora de órbita. Já pedi ajuda a alguns companheiros caravaneiros, mas ninguém achou o defeito ainda. Tenho esperança de que Fabrizzio, que para tudo tem jeito - ele é o nosso coordenador executivo, a quem apelidei de "meu herói", porque soluciona as coisas mais complicadas em termos de logística - possa resolver o nó. Agora uso uma máquina do hotel onde estamos hospedados, em Buenos Aires. Sim, trata-se de um hotel, e de luxo, rs... A Odebrecht, uma das nossas apoiadoras, vai garantir hospedagem em todas os países onde tem sede. Preciso parar por aqui. A rua me espera.
21 de janeiro de 2010
Um registro de Montevidéu
O senso de observação continua me acompanhando. Percorri algumas ruas de Montevidéu, olhei daqui, olhei dali, e fiz algumas leituras. Mas, enquanto não sobra tempo para escrever o que colhi, deixo uma imagem que comunica uma de suas belezas: a gostosa presença das árvores lhe enfeitando.
17 de janeiro de 2010
Domingo no Uruguai
"Desfrute", me diz Aria, professora que conheci na Praça da Independência, em Montevidéu, assim que desembarcamos, o que aconteceu aproximadamente às 20 horas, sob um sol que equivale ao das 16h no Brasil. Ela estava sentada num banco da praça com Álvaro, um clarinetista que é seu amigo, e os dois, ao verem a Caravana chegando, se interessaram para saber do que se tratava. Enquanto a comissão de hospedagem conferia se havia vaga no albergue, eu resolvi caminhar um pouco pela praça para sentir e respirar o cheiro da cidade, que é simplesmente um charme, quando fui abordada por eles. Conversamos rapidamente, mas o suficiente para me desejarem sorte e falarem o quanto é lindo o que estamos fazendo, ou seja, cruzando boa parte do nosso continente num ônibus. Fiquei ali escutando as palavras carinhosas dos dois e tendo a sensação de que pisar em Montevidéu, recebendo as doces frases ditas por Aria e Álvaro, é um presente, pois não havia melhor forma de chegar em solo uruguaio. Afinal, a mensagem foi: "desfrute". E lá vou eu. Tomarei um banho, colocarei sapatos vermelhos e andarei por onde ainda não toquei.
16 de janeiro de 2010
Superação do impeditivo da fronteira e mais estrada
Estou em mais um quarto de hotel. Desta vez, numa cidade brasileira que ainda nem sei o nome. Desembarcamos bem depois da meia-noite, após termos cruzado mais outra fronteira: a que faz divisa entre a Argentina e o Brasil. Por sinal, esta é uma fronteira bastante movimentada e com muitas filas. Ali conhecemos o valor do peso, moeda argentina, que vale bem menos do que o nosso real. Meu lanche, por exemplo, custou R$ 6,00 (Seis reais). O tanto que comi, se fosse comprado numa lanchonete brasileira, seria bem mais caro. Chegamos aqui neste município brasileiro sob uma temperatura mais baixa do que a que estávamos pegando nos últimos dias. Já tomei banho e preciso me recolher porque a previsão de saída em direção a Montevideo é 4 horas da manhã. Isso: saímos do Paraguai, passamos pela Argentina, voltamos para o Brasil e seguiremos para o Uruguai. Sim, o zigue-zague faz parte do nosso movimento e pede paciência. Foi um sábado de muita estrada, após termos conseguido ultrapassar a barreira colocada pela fronteira argentina. Dedicamos o turno da manhã para conseguirmos as recomendações do Consulado, que foi aberto exclusivamente para o nosso atendimento, e, na fronteira que ontem nos barrou, passamos, após muita conversa, explicações e revista de todo o ônibus, que foi completamente esvaziado, ou seja, retiramos todas as bagagens, as quais foram examinadas numa esteira de detectores de metais e outras coisitas, improvisada dentro de uma Van, que fica na extremidade da fronteira. Para animar o dia, tive o lindo pôr-do-sol na fronteira entre a Argentina e o Brasil, e que aconteceu pra lá das 19 horas; a bela vista do Rio Uruguai; o alô que dei para meu amado e meus pais; a mensagem linda que meu pai me passou no celular; a sua saudação para os motoristas, de quem sente "inveja", rs... porque gostaria de estar fazendo esta linda viagem; a cantoria dentro do ônibus e o céu mais que estrelado, que vi com a janela do ônibus aberta e os olhos com lágrimas, pois senti uma pulsação incrível de vida em mim. Como é maravilhoso viver e contemplar! Meu Deus, obrigada por tudo.
15 de janeiro de 2010
Primeira fronteira difícil
Escrevo de dentro do ônibus, às 02h21. Estamos na fronteira entre o Paraguai e a Argentina, no lado paraguaio, depois de termos demorado bastante tempo para conseguirmos passar para o lado argentino. Uma vez atravessado para lá, retornamos para o lado paraguaio porque fomos impedidos de entrar em Posadas, em terras argentinas, onde inclusive tínhamos reservado hospedagem. Os guardas cobraram um documento que o Brasil não concede em casos de transporte federal (placa branca), como é o ônibus da UFBA que está nos transportando, sob o apelido de Inulatão, pelas belas estradas da nossa América do Sul. Isso foi explicado para eles, mas não houve jeito, e tivemos que voltar para a cidade fronteiriça em solo paraguaio, e que se chama Encarnação, em português. A recomendação é atravessarmos a fronteira, amanhã, trazendo conosco uma recomendação do Consulado, o que vamos solicitar também amanhã. Isso poderá ser facilitado porque o embaixador do Brasil no Paraguai nos deu seus contatos e disse que podemos contar com ele para tudo. Sendo assim, agora vamos dormir no Paraguai. A exigência da equipe de fronteira do lado argentino está completamente equivocada, disse nosso coordenador, que é professor de Relações Internacionais. Chamo atenção para o fato de que a Argentina é integrante do Mercosul, como o Brasil, o que agrava ainda mais o impedimento que nos foi dado na fronteira. Agora estamos indo para uma pousada em Encarnação. Hum! E, para todos os caminhos que fazemos, haja GPS e consultas e consultas a mapas. Não é incomum os motoristas, muito habilidosos, por sinal, fazerem manobras de volta, acionar a ré e buscarem outro atalho. Isso nos gera uma sensação incrível de desbravamento. Ainda sobre a não-travessia da fronteira, me impressiona ver como as mercadorias circulam livremente pelo mundo, e, nós, pessoas, não. Bom, escrevo de um computador emprestado. A viagem já está no nível do compartilhamento de equipamentos, comida, itens de beleza etc. Ah, temos em nosso ônibus uma impressora que nos ajudou muito na fronteira paraguaia, pois precisamos imprimir alguns documentos. Mais um informe: saímos de Assunção por volta das 16 horas, e o caminho até aqui foi recheado de pontes extensas, mas só vi uma delas. A mais bonita, me disseram. Não vi as demais porque dormi. O cansaço bateu. Vou parando por aqui num momento em que Marivaldo, o motorista deste momento, faz mais uma manobra de volta para outro ponto. Como é bom estar em estradas que nunca imaginei antes.
14 de janeiro de 2010
Atravesso e toco uma camada mais profunda
A camada do comércio
Caixas, sacolas, muita mercadoria, e a primeira camada do Paraguai é tocada por mim. Saio de Ciudad del Leste portando uma câmera de vídeo e querendo ultrapassar a casca da mercantilização, que contorna a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Faço uma foto que sintetiza esta passagem e sigo para Assunção, querendo encontrar o néctar da terra paraguaia.
Dando-me às Cataratas
Outras camadas do Paraguai
Ficou para trás, na tarde de ontem, a Ponte da Amizade, tão mostrada pela mídia, através das imagens das pessoas jogando suas compras no rio, para se livrarem do pagamento do imposto, que, segundo os vendedores das lojas, é de 50% do valor do produto adquirido, e, quando se paga, leva-se em média duas horas numa operação que acontece numa agência do Banco do Brasil, situada na aduana, como uma continuação da Receita Federal. Não tem como passar por essa tão televisionada ponte, e não acessar o arquivo, que em nós, é formado por meio das notícias. Logo, é mesmo impressionante como os meios de comunicação constroem nosso olhar sobre os espaços, as pessoas, as ideias, os sentimentos etc. Constatação esta, que além de nos obrigar a lutar por uma comunicação que permita a expressão de todos e todas, nos diz que precisamos caminhar, nos movimentar, sair de onde estamos para ver o que é mesmo que existe no mundo, saber como é o mundo, tocar o mundo. Estou nessa. Nessa de enxergar o Paraguai para além de uma grande loja comercial, onde tudo se compra e se vende. Quero falar muito mais de como estou me sentindo, ao ver e viver um Paraguai que ultrapassa as marcas Sony e Panasonic, e que vai além dos perfumes baratos e das negociações escusas. Sim, estou tocando um Paraguai que luta pelo direito à terra; um Paraguai, que em suas ruas, abriga carros antigos, mas não pessoas famintas; um Paraguai, onde a sopa não se pode tomar de colher, pois é sólida, e a agitação parece ser uma palavra fora do vocabulário do seu povo, pois Assunção é uma cidade pacata e carrega uma simplicidade - que a princípio - parece decifrável para quem a olha com atenção. Sinto vontade de preencher mais este texto com as vivências tidas aqui até o momento, mas vou precisar conclui-lo, o que farei deixando alguns registros fotográficos feitos na minha caminhada pelas "calles". Sim, há muito já em mim para sair em forma de palavra, mas daqui a pouco vou participar de uma entrevista com Belarmino, um dos condutores do Movimento Campesino Paraguaio (MCP). Depois, devo visitar a sede de uma emissora de televisão comunitária e conhecer um pouco mais desta cidade, que foi por mim encontrada, por volta da meia-noite de hoje, quando a Caravana aqui chegou. A saída de Foz de Iguaçu, a travessia da Ponte da Amizade e a chegada aqui ainda merecem muito mais de minhas mãos escreventes. E que este mais venha.
12 de janeiro de 2010
Muitos quilômetros
Tomei banho, o corpo não está tão cansado, a fome vem chegando e daqui a pouco vou comer. Provavelmente será um sanduíche, já que o cheiro de pão assando, com recheio de queijo e presunto, toma conta do ar. Há um barulho em volta de mim, mas vou tentar sublimar o cerco que me rodeia, pois sinto a necessidade de falar da conversa da minha pele com o tempo.
Bom, mas antes de qualquer narrativa nova, preciso fazer um anúncio mais completo do meu momento atual. Vamos lá: Eu, Sarah, 32 anos, jornalista, doutoranda de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), devota das palavras, desejosa de mais conhecimento e amante do amor, fui selecionada, no dia 15 de dezembro, para a Iniciativa UFBA Latina (INULAT), uma caravana que consiste numa expedição terrestre composta por 17 estudantes, seis documentaristas e dois motoristas e que, com o objetivo de estudar e valorizar a integração regional da América Latina, vai percorrer nove países da América do Sul.
O ônibus, que leva a Caravana, todo colorido e com um mapa estilizado dando-lhe marca única, saiu de Salvador, sexta-feira última, dia 08, sob uma emoção deliciosa: meu pai, minha irmã Cláudia, meu namorado e meus amigos, assim como os familiares dos outros integrantes da Caravana, foram acompanhar a partida da Caravana e nos deixaram seus depoimentos sensíveis. Num desejo coletivo de boa viagem, seguido de uma oração feita em roda, o motor do ônibus foi acionado e a saída aconteceu. Obá!
Eu colhi todas as delícias da partida, que aconteceu no Campus da UFBA, em Ondina, mas deixei o ônibus seguir, pois precisava fazer algumas coisas, em Salvador, antes de me lançar na viagem de dois meses pelo nosso continente. Ontem, segunda-feira, após um fim-de-semana de gostosas horas, embarquei então numa longa viagem aérea para a cidade de Foz de Iguaçu. Foram três aeronaves até chegar em Foz.
Ainda não passaram 24 horas desde que cheguei e muitas sensações me visitaram. Agora faz uma noite de chuva, estou num albergue espaçoso e verde, após um dia de pouquíssima ventilação e imagens colhidas nas Cataratas do Iguaçu. Que exuberância, meu Deus! Ali reside o poder da água que bate com força na pedra. Huhuhuhu! Que assim permaneça, que assim permaneça e nada me escape, que assim permaneça e nada me leve para o contrário do olhar expandido, que assim permaneça e o meu coração cresça com as emoções boas, que me tomarem pelo extenso caminho, que, amanhã, ruma para Assunção, no tão vizinho Paraguai, onde o Brasil acionou uma guerra, deixando uma triste passagem em nossa história. Vamos ver o que vou sentir lá.
Bom, mas antes de qualquer narrativa nova, preciso fazer um anúncio mais completo do meu momento atual. Vamos lá: Eu, Sarah, 32 anos, jornalista, doutoranda de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), devota das palavras, desejosa de mais conhecimento e amante do amor, fui selecionada, no dia 15 de dezembro, para a Iniciativa UFBA Latina (INULAT), uma caravana que consiste numa expedição terrestre composta por 17 estudantes, seis documentaristas e dois motoristas e que, com o objetivo de estudar e valorizar a integração regional da América Latina, vai percorrer nove países da América do Sul.
O ônibus, que leva a Caravana, todo colorido e com um mapa estilizado dando-lhe marca única, saiu de Salvador, sexta-feira última, dia 08, sob uma emoção deliciosa: meu pai, minha irmã Cláudia, meu namorado e meus amigos, assim como os familiares dos outros integrantes da Caravana, foram acompanhar a partida da Caravana e nos deixaram seus depoimentos sensíveis. Num desejo coletivo de boa viagem, seguido de uma oração feita em roda, o motor do ônibus foi acionado e a saída aconteceu. Obá!
Eu colhi todas as delícias da partida, que aconteceu no Campus da UFBA, em Ondina, mas deixei o ônibus seguir, pois precisava fazer algumas coisas, em Salvador, antes de me lançar na viagem de dois meses pelo nosso continente. Ontem, segunda-feira, após um fim-de-semana de gostosas horas, embarquei então numa longa viagem aérea para a cidade de Foz de Iguaçu. Foram três aeronaves até chegar em Foz.
Ainda não passaram 24 horas desde que cheguei e muitas sensações me visitaram. Agora faz uma noite de chuva, estou num albergue espaçoso e verde, após um dia de pouquíssima ventilação e imagens colhidas nas Cataratas do Iguaçu. Que exuberância, meu Deus! Ali reside o poder da água que bate com força na pedra. Huhuhuhu! Que assim permaneça, que assim permaneça e nada me escape, que assim permaneça e nada me leve para o contrário do olhar expandido, que assim permaneça e o meu coração cresça com as emoções boas, que me tomarem pelo extenso caminho, que, amanhã, ruma para Assunção, no tão vizinho Paraguai, onde o Brasil acionou uma guerra, deixando uma triste passagem em nossa história. Vamos ver o que vou sentir lá.
4 de janeiro de 2010
Nada é por nada
Não foi em vão, foi meu corpo que não aguentou. Sou muito corpo para não ter meu corpo no lugar que merece em minhas vivências. Meu corpo me guia no mundo. Meu pé é mais do que meu pé. Minhas pernas precisam de mãos que lhes toquem. Meus seios precisam do tato masculino e da língua que circula tudo que sou e levo comigo.
2 de janeiro de 2010
Que a energia se renove
E eu, que passei o ano de 2009 todo sem consegui me conectar com as datas que requerem os meus rituais, transformei o reveillon numa noite perdida e vazia de alegrias. Não houve fogos acima dos meus olhos e nem espumante descendo pela garganta. E de tudo tinha para ser uma excelente passagem de ano: namorado amável; festa poética em casa de amiga sensível; um poema, de Adélia Prado, e outro, de Damário Dacruz, decorados para falar na hora da virada; o último pôr-do-sol do ano, visto com o meu amor, no Porto da Barra; livro para dar de presente à amiga; duas flores vermelhas em casa; uma fruteira linda esbanjando bananas, ameixas e uvas; vestido branco comprado com antecedência. Ou seja, a quinta-feira caminhava para encontrar um delicioso desfecho, quando o último banho do ano me chegou como uma negativa a tudo de belo que poderia me ser. Toquei o meu corpo e senti sensações que me diziam o quanto corri nos 12 meses do ano, de modo que anversariei atropeladamente, após uma viagem ao Rio de Janeiro; não amei bem os que precisam dos meus presentes; não consegui estar ritmada com a celebração e nem pude ter uma conversa de pé de ouvido com a contemplação; me escapou o espírito contagiante que me estabelece na vida como amante de tudo de maravilhoso que habita o mundo; se foi um senso leve que me significa pureza, e o meu feminino simplesmente se perdeu. O banho me disse o quanto eu não tive tempo para mim, para me perceber, e esta constatação no último banho do ano me fez me desmanchar em palavras perdidas, me desfazer em chamados que não me servem. Briguei com quem me gosta, espalhei o que não edifica e, de salto alto vermelho, caminhei sozinha pelas ruas. Fiz o trabalho sujo de estragar o reveillon. E como me dói saber que fiz isso, que não segurei e emoção que me chegou, ao pendurar a toalha no banheiro. Depois que me sequei, sei lá o que me deu, que eu me transformei numa alucinada mulher gritando as insatisfações. Meu Deus, me cura disso, me cura dessa pressa, dessa necessidade de estar permamentemente ligada, me cura de ter tantos diferentes pensamentos ao mesmo tempo, me salva do que eu não preciso ser, não me deixe me perder em embaraços. Que 2010, eu sinta, simplesmente sinta, com leveza, esta vida linda que o Senhor me deu.
Assinar:
Postagens (Atom)