8 de junho de 2011

Daquilo que me toca II

Preciso dizer que uma das cenas que mais me tocam em Strasbourg, cidade extremamente bonita e encantadora sobre a qual tenho escrito em recortes e sei que devo aos leitores as fotos que já fiz dos seus inúmeros cantinhos amáveis, são os homens e mulheres, com seus cabelos brancos, denotando estarem depois dos 70 anos, todos eles cheios de saúde e bastante vigor, andando de bicicleta sob a configuração do par.

Adoro vê-los um ao lado do outro em suas bicicletas, vestidos com roupas despojadas e levando uma mochila nas costas. É um mimo e me transmite um bem-estar considerável. Fico mesmo bastante encantada com a forma como eles exercitam a afetividade nas ruas. Esbanjam tanta franqueza! Eles caminham de mãos dadas, se beijam, se acariciam, se acarinham. É uma imagem que enche meu coração de calor. Sinto-o realmente forrado pela ebulição da afetividade.

Outro dia, andando pela Université de Strasbourg, que não tem muros, de modo que seu espaço penetra e é penetrado pela cidade, o que faz da sua estrutura um local especialmente coletivo; eu, sabendo que ainda não era hora da rotina se instalar, me permiti parar e literalmente me embriagar com a seguinte cena: um casal de idosos, aparentando mais de 80 anos, caminhando com os olhos voltados para cima, sobretudo, a senhora em seu vestido bem arrumadinho.

Era um sábado e parece que eles saíram de casa para verem as árvores. Fiquei com esta impressão e foi maravilhoso seguir meu dia com este tom dentro de mim. Inesquecível ver a mulher apontar com seu dedo detalhes da árvore e convidar seu companheiro para que também se encantasse com o que ela via de bonito. Ele deu o aceite e entre os dois tudo foi pura descoberta de uma árvore que se fez presente no caminho.

Acredito que eles já se depararam inúmeras vezes com árvores, mas talvez nunca tenham perdido o sabor de contemplá-las, e o melhor: não se desapegaram do precioso hábito de um mostrar para o outro o que chama sua atenção. Simplesmente emocionante ver aquela senhora convidando seu amor para que ele notasse os detalhes de uma árvore.

27 de maio de 2011

Hoje, sou prazeirosamente a aniversariante

Doses de palavra

Beirando os 34 anos, que serão completados dia 27, aproveito o sol francês para colocar um decote. Alcanço-o, por meio de uma blusa lilás de alças, e me reencontro com o tamanho, a forma e o volume dos meus seios, esta parte do corpo da mulher que sinaliza emoções, ganhos, perdas, desejo, passagem do tempo, erotismo, força. Eu tenho peito e levo a vida de peito aberto.

Terça-feira (24.05)


Bem-vinda a semana do meu aniversário, viva! E, após homenagear meus seios, hoje é dia de fazer reverência às pernas. Elas que me permitem, numa parceria admirável com meus pés número 37 e que adoram se revestir de sapatos estilo boneca, as lindas andanças que realizo por este mundo. Amo-me em meu corpo, amo-me em cada pedacinho de mim, que forma este inteiro que sou. Obrigada pernas e pés por me fazerem transitar.

Quarta-feira (25.05)


Peitos enaltecidos, pernas reverenciadas, idade nova chegando; hoje, os aplausos vão para minha cabeça-alma-coração. Misturei estas partes em mim para que meu percurso de vida eu pudesse fazer bem assim como faço, ou seja, acreditando ser possível rimar razão e instinto, e eu, então, me compusesse como fonte e também como depósito, a dar e receber, a oferecer e a colher: sensações, palavras, fogo. Sou intensa.

Quinta-feira (26.05)


Homenagear meu corpo, agradecendo-lhe por tudo que ele permite, foi a maneira que encontrei para receber sobre a pele os 34 anos que chegam, amanhã. Trago novas declarações de amor e volto-me agora aos braços que me fazem abraçar o tátil, o concreto, mas que também me enlaçam com o abstrato. Aclamo as mãos, e digo: sou incondicionalmente apaixonada por vocês e viciada nas palavras que derramo, graças a vocês duas.

Hoje, sexta-feira (27.05)


Acordar, rezar, respirar o inédito e sair por aí. Maravilhoso ser Sarah nos arredores do mundo. Hoje, aniversario como quem canta uma nova música para a vida a cada nascer do sol. Obrigada, Deus, pelos presentes preciosos que recebo, graças a sua presença em minha caminhada. Que eu saiba, sempre, sempre, sempre, cuidar da sua participação na montagem da minha história.

26 de maio de 2011

Penso mais do que como

Ponho-me a escrever e minhas mãos correm para folhear a caderneta onde, sentada em algum lugar, caminhando pelas ruas ou mesmo em pé numa estação, deposito minhas impressões. Vejo-me a vasculhar as anotações, os cheiros apreendidos, os pedaços de cidade que, ao longo dos dias, vou apanhando e colecionando. Sinto vontade de guardar absolutamente tudo que manuseio. Sei lá, há horas em que penso em fazer um mural gigante com o que recolho, há outras em que desejo editar uma brochura, contendo os rastros deixados em mim pelas terras francesas.

Bom, mas qualquer que seja o resultado que as absorções que venho realizando durante esta experiência consigam gerar, seja um livro, um filme ou um álbum de fotografias bastante enfeitado, é verdade que tenho comigo guardanapos pegos nos mais diferentes cafés onde estive, etiquetas de coisas compradas, rótulos dos produtos adquiridos para a limpeza da casa, os ticketes utilizados no tram urbano que me leva aos locais, quando não utilizo a bicicleta (é assim mesmo que se escreve: "tram", pois ele se difere dos trens que se deslocam entre as cidades).

Há também em meu poder bilhetes usados no metrô parisiense, alguns rabiscos aleatórios que fiz provocada por uma cena que me atraiu, dicas de endereço que vão me dando, à medida que vou tendo necessidade de ir a algum lugar, isto é, um mercado, uma estação de rádio, uma loja ou uma associação; número do telefone de gente que conheci, dentre tantos outros recortes desta vida francesa, que vou tomando como minha.

Permaneço disposta a captar Strasbourg, querendo abraçá-la por completo. Todo amanhecer sou tomada por um turbilhão de curiosidade que prazeirozamente me atravessa e me pede um jeito meu frente aquilo que vier a chamar minha atenção. Outro dia, foi um dos restaurantes universitários, onde costumo comer, pagando, tanto para almoçar quanto para jantar, 3 euros [este valor eu pago, hoje, pois já sou aluna devidamente matriculada na Université de Strasbourg, mas antes de ter comigo a carteira de estudante, precisava desembolsar 4,50 euros]. O valor de 3 euros é descontado em minha carteirinha de estudante, a qual eu devo abastecer para ter o que descontar, claro.

Preciso dizer que a recarga da carteira, após eu entregar a uma senhora o valor que desejo colocar como saldo, é feita por mim em uma máquina. Isso mesmo, aqui há máquinas para tudo. E haja a palavra "validar" para se ter acesso ao serviço que elas garantem. É assim: você abastece a carteirinha de estudante numa máquina para ter recurso para usar nos restaurantes e nas cafeterias universitárias e, depois, valida; compra o bilhete do tram urbano e, em seguida, valida; coloca moedas na máquina de lavar roupas numa lavanderia, e valida; alimenta a máquina que oferece café, e valida; coloca o cartão de crédito na bomba de combustível, no posto de gasolina, e valida. E, se não validar, o bicho pega. Por exemplo, se você se esquecer de validar a passagem de tram e dentro do vagão você dê de cara com algum funcionário do controle, é complicação na certa.

Algumas funções, no velho mundo, já foram mesmo retiradas da dimensão humana e eu honestamente não desaprovo de todo, pois existem maneiras de produzir que eu sempre considerei reducionistas do "ser pessoa" que habita as pessoas, a exemplo da atividade que consiste em apertar botões dentro de um elevador para conduzir seus passageiros de um andar para outro. Ôps, mas aqui estou entrando num terreno por demais complexo, que dialoga com a Sociologia do trabalho e requer muitas linhas. Vou resistir ao desejo de falar mais sobre isto, deixar o assunto "trabalho" de lado e retomar o fio da meada deste texto.

Pronto, voltando ao restaurante universitário, que foi o que citei para falar do quanto estou aberta ao que Strasbourg me revela dela, e, por conseguinte, me leva a revelar-me a mim mesma, preciso contar que, estando eu, pela primeira vez, dentro do Gallia, um dos restaurantes universitários da cidade - aqui, entre restaurantes e cafeterias universitárias, existem 14 opções -, meu pensamento trabalhou muito, muito mesmo. Ele atuou mais do que o estômago e seus movimentos peristálticos.

Fiquei atenta a tudo que as pessoas faziam em relação ao comportamento na fila, ao ritual de apanhar bandeja, prato, copo, talher... e imitei cada passo para não pagar mico. Servi-me de tudo que pude, e pode-se bastante: salada, prato do dia, queijos luxuosos e sobremesa. Acomodei-me numa das mesas, olhei para o teto e estava dado o start para eu me perder em meio à beleza arquitetônica do lugar. Fiquei ali, com meus olhos de visitante, tomada pela estrutura daquela construção antiga, suas cores, suas luzes, seus lustres. Quis abarcar tudo que eu enxergava e, quando me procurei, lá estava eu almoçando com minhas lembranças da estudante universitária que fui, em Aracaju, quando cursei Jornalismo, na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Fui percebendo o quanto gostei de ser estudante de graduação e como gosto de manter esta aura como parte da minha personalidade. Afinal, aprecio estar neste lugar de quem aprende sempre, gasta pouco, se diverte com o que surge e tem interesse em conhecer as pessoas que aparecem no caminho. Avancei na ingestão da comida com tempero novo e, entre uma garfada e outra, me vi dimensionando meu vínculo com quem eu já fui e preservo e, ao mesmo tempo, meu afastamento de quem eu fui e não quero e nem preciso mais ser - ai, como é bom termos este direito de deixar de sermos quem fomos! Comi lentamente o dito "prato do dia", nosso famoso prato feito [mas não sei o que era exatamente, pois ainda não sei decodificar as opções], e, quando eu estava devorando a sobremesa, fui assimilando o quanto minha identidade é atrelada à dimensão estudantil da minha trajetória, acionada com ênfase quando habitei a cidade de Aracaju, onde morei numa república povoada de alegria, criatividade, amor e desejo de ser feliz.

Ao me ver friccionada com esta constatação de que minha identidade atual carrega muito do universo estudantil vivido em terras aracajuanas, para aonde fiz meu primeiro deslocamento a partir da minha cidade de origem: Feira de Santana, me lembrei imediatamente da frase do livro "Memórias de Adriano", de Marguerite Yource, e que diz: "O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (...)". Pronto, foi encontrar-me com esta frase e todo um chacoalhar de perguntas me cercou: quantas vezes podemos nascer? Quantas vezes devemos morrer? Quantas cidades podemos carregar como nossa? O que me é inteligente, hoje, permanece, amanhã? O que sei sobre mim, agora, dura quanto tempo? Aquele ponto que em mim não gosto pode se dissolver, quando eu me cruzar com a próxima cidade que vou conhecer?

21 de maio de 2011

Frases soltas de quem para tudo olha

Estimuladas pela observação estas frases brotaram, e eu, sem censura, as escrevi na adorável cadernetinha, esta parceira que abriga as anotações que Strasbourg me desperta. Partilho-as com vocês, sabendo-me uma mulher, que faz do papel e da caneta, boas aliadas, mas que nem sempre consegue imediatamente reproduzir aqui as colheitas realizadas, de modo que abaixo há escritos providenciados ainda nos primeiros dias de vida minha aqui.

1) Estou há dois dias em Strasbourg e ainda não vi crianças fardadas [dois dias depois que me dei conta disso, minha professora me diz que aqui as escolas não exigem fardamento]. Conclusão: com base em minhas referências, estava procurando o que não existe nestas terras.

2) Os jovens desta cidade são estilosos, me parecem mais "mundializados" do que as pessoas mais maduras, e as mulheres não sabem o que é acne. Que privilégio elas têm!

3) Sei que a situação que vivo: deslocamento do local de origem para vivência temporária noutro lugar é substância que, ao longo da história, já permitiu a elaboração de teorias, pensamentos, paradigmas, a escrita de cartas, emails, livros; é matéria que faz despertar uma saudade específica. Sinto-me, então, dentro de um impulso que gera.

4) Desejo o instinto mais vivo do que a razão dentro de mim.

5) Meu corpo pede, meus sentidos exigem, meu verbo requer: uma apreciação nada metrificada.

6) Fotografei as linhas pintadas na pista do aeroporto de Salvador. Não consegui fazer o mesmo com as da pista do aeroporto de Strasbourg. Gostaria de unir as linhas de lá com as de cá e fazer a continuidade de quem eu sou, mas com mudança de cenário, alteração de figurino e aperfeiçoamento profundo da personagem. 

17 de maio de 2011

17 de maio: um mês em Strasbourg

Olho nos olhos do homem que comigo vive, escuto suas frases comemorativas e sei que é hora de brindamos ao meu primeiro mês como habitante de Strasbourg, na região da Alsace, leste da França.

Encontro das taças no ar, escutamos o som que advém deste inédito tintim. Pela garganta, passa adequadamente o vinho comprado em meio a uma quantidade incomensurável de opções boas e muito baratas [há vinhos maravilhosos por menos de 3 euros e posso afirmar que as prateleiras de vinho nos supermercados franceses dispensam economia de tempo; o negócio é apreciar].

Segue-se a noite. Respiro com a mesma leveza que apresenta uma flauta transversa ao emitir suas mais íntimas notas musicais, e, com o pulmão oxigenado, entro numa observação desmedidamente retrospectiva.

Revejo meus pés em contato com o chão do quarto, certifico-me de que as malas foram esvaziadas, as roupas arrumadas dentro do guarda-roupa, o banheiro recebeu escova de dente, a nova cozinha, com fogão de duas bocas, é o máximo; a geladeira pequena atende bem, os livros se agruparam jeitosamente na estante e o computador tem local específico em casa. O mês que passou me chegou como um presente: são muitas as boas colheitas que fiz.

Numa nuance imprecisa, mas sábia, volto-me para os últimos 30 dias. Noto, com estupendo prazer, ruas novas, pessoas diferentes, ideias mágicas, passeios transcendentes. Recapitulo a infinidade de prédios bonitos e a poderosa luz do sol que se presentifica, às 20h40, em minha janela. Enalteço as proveitosas conversas de orientação acadêmica tidas na bela e acolhedora Université de Strasbourg. Valorizo a ida de bicicleta para Alemanha, a passagem fascinantemente inesquecível por Paris e muito mais de edificante que, entre o dia 17 de abril e 17 de maio, se agregou ao que sou.

Exalto o encaixe que há entre mim e o desejo de aproveitar o máximo cada momento vivido em terras distantes das minhas. E este encaixe, que parece àquelas pecinhas dos brinquedos legos, recebe de mim todo cuidado.

Fico horas admirando-o, protegendo-o, limpando-o, retirando a poeira, que por ventura, venha a atrapalhar a conexão. Busco me livrar de tudo que possa danificar as pontas que me permitem elos, por isso, lubrifico as peças que saem de mim e, ao se ajustarem precisa e criativamente às peças que o mundo disponibiliza, me levam, a partir da interação profunda com elas, a um conjunto de incontáveis descobertas e aprendizados.

Faxina feita, sentimento renovado, brinde erguido, sinto-me preparada para continuar vivendo em Strasbourg e experimentar tudo que esta preciosa cidade francesa me oferece. 

13 de maio de 2011

Recuperando para não perder

"Recuperando para não perder" é a frase que nesta sexta-feira eu preciso pronunciar, pois já perdi o número de em quantas estações de trem e de em quantos trens eu já estive, desde que desembarquei em solo francês. No entanto, ainda não expus o texto que escrevi em minha cadernetinha vinte e quatro horas após minha chegada à Strasbourg.

O referido texto se apresenta, hoje, e aproveito para anunciar que o silêncio dos últimos dias está relacionado ao defeito que meu computador apresentou e que o fez ficar alguns dias nas mãos do Senhor Bouzar, um homem de aproximadamente 65 anos, que cobrou 45 euros pelo conserto, vendeu pilhas para a lanterna da bicicleta emprestada que disponho, deu de presente pra mim e pra Nelson um chaveiro que ilumina e, quando voltamos à sua loja para apanharmos o computador de volta, nos sorriu falando nosso nome. Amamos!

Bom, computador reparado, foi a vez do Blogger, serviço que abriga meu blog, entrar em manutenção, de modo que estive sem condições para publicar. Enfim, alguns impeditivos à escrita, mas ela venceu e aqui estou. Vamos lá...

Em meu segundo dia em Strasbourg, sentada à mesa de um restaurante, onde almocei, eu escrevi:

Soletrar uma cidade é embarcar numa leitura, cujos parágrafos não se apresentam imediatamente. Ontem e hoje, experimentei esta sensação de tentar ler o que eu ainda não fui alfabetizada para reconhecer. Diante de um conjunto de códigos estruturados, de um emaranhado de histórias vividas por quem mora aqui, me vejo enumerando as cenas que me chegam e faço isso pondo em ação meu nariz, minha boca, meus olhos, minha pele.

Trago minha biografia para se somar a um universo de pessoas nascidas aqui, outras, chegadas de lá, outras, vindas de acolá; todos nós numa mesma cidade sintonizados pela linha do "estar aqui e agora".  Ou seja, independente da forma como aqui nos instalamos, somos, no atual circuito de tempo, habitantes de uma mesma cercania. E, nivelados por esta linha, todos nós, neste terreno, buscamos a felicidade, o encontro, a incorporação de possibilidades, que até o momento ainda não surgiram e que talvez nos cheguem, tendo Strasbourg como personagem desta aquisição.

Na posição em que me vejo: dois dias de contato com a cidade onde vou morar por um ano, de modo que ainda tenho outros 363 dias pela frente, é normal que tudo me seduza, que a cor verde da poltrona do trem urbano, que me levou a alguns locais, queira estar entre os signos colhidos e guardados por mim em meu repertório de lembranças.

Peço para as poltronas e também para mim mesma que não nos relacionemos como se eu estivesse visitando Strasbourg por uma quinzena de dias, e, portanto, tudo tivesse que me penetrar com a velocidade das viagens corridas, mas que consigamos encontrar o caminho da convivência mais alargada, embora ao mesmo tempo um tanto quanto rápida. Afinal, será nada mais que um ano.

Mas, ainda que passageira, será uma convivência com direito a endereço, à matrícula na universidade, a compras no mercado, à posse de panelas, a fronhas minhas, a roupas lavadas na lavanderia, à faxina de casa, a um guarda-roupa, à conta bancária e a um espaço particular. Então, que saibamos nos descobrir, nos aproximar, nos dizer e fazermos muitos percursos juntas.

Sim, poltronas do trem de Strasbourg, vocês vão me levar e me trazer de muitos lugares nesta cidade, que também será minha por 12 meses.

Doce Strasbourg, pois é, a senhora é "meu aqui", a partir destes dias, e quero que saiba que estou muito feliz por isto. 
Muito a dizer

27 de abril de 2011

Uma foto para falar de Strasbourg




Disponho de um significativo arquivo de fotografias feitas nesta linda cidade, mas o tempo, que Strasbourg me pede para descobri-la, me faz não ter como me sentar para escrever longamente, conforme merece a experiência que estou tendo em interação com ela. Então, fica , por enquanto, a imagem da Place Kléber. Aproveitem!

20 de abril de 2011

Texto, voz, interrupção, questionamento

A perspectiva da chegada é uma delícia. Tudo se soma num quantitativo bonito, cuja degustação é de um sabor que beira o êxtase. O ponto que demarca o começo de uma jornada sempre estará guardado no espaço mais especial que temos em nosso íntimo. Falo daquele lugarzinho dentro de cada um de nós reservado para o arquivamento dos momentos que, sabemos, são disparadores de uma camada interminável de emoções, as quais serão transformadas, mais tarde, em verdadeiras pérolas adornando nosso coração, este pedaço humano tão ferverosamente desejoso de prazeres.

Ao colocar os pés na França, além de eu ter escutado em meu fone de ouvido, ainda dentro da aeronave da Airfrance, a música "Samba da Rosa", de Vinicius de Moraes, que sabiamente compôs: "rosa pra se ver, pra se admirar, rosa pra crescer, rosa pra brotar (...) rosa pra sorrir (...) É primavera / É a rosa em botão", lembrando sempre que desembarquei em solo francês, quando a primavera apontava no horizonte e pedi a este país que me recebesse como flor em seus jardins, as vitrines das lojas se ocuparam de tudo que se refere ao mundo dos chocolates e dos coelhos, pois a Páscoa se aproxima e esta data deixa Strasbourg com ares de infância.

Vira e mexe, encontro um parquinho com brinquedos eletrônicos pelas ruas, com crianças se divertindo e as mães cuidando delas. Sim, aqui a figura da babá inexiste. Posteriormente, vou procurar saber melhor como as mulheres dão conta de cuidarem dos seus pequenos, levando-os de carrinho para todos os cantos e dispensando a contribuição de outra mulher. Aproveito para deixar registrado o quanto a situação da babá me incomoda. Muitas delas deixam seus filhos entregues ao descuidado, em casa, para cuidarem dos filhos de outras mulheres e garantirem uma renda mínima para criarem suas crianças.

Interessante que este texto teve sua produção interrompida porque recebi a visita da professora Laurence e da sua filha Julina, de 11 anos. Mãe e filha me buscando, quando eu estava escrevendo exatamente sobre a relação das mulheres com suas crias. Eita vida boa de sintonia esta minha, meu Deus! A professora veio aqui em minha mais nova casa, situada na Boulevard de la Victoire, 6700, Strasbourg, para me conhecer e dar as boas vindas. A jovem da recepção me avisou pelo telefone que havia pessoas me esperando. Apanhei meu caderninho, minha caneta e entrei no elevador. Passados alguns poucos segundos, estava eu cumprimentando Laurence e Julina. Vale dizer que fui ao encontro da professora, com a certeza de que teríamos uma conversa rápida e destinada quase que exclusivamente a compromissos de pesquisa. Isso porque nos dizem: os franceses são muito práticos etc, etc. Mas, adianto: não tive com ela um papo acadêmico.

Laurence me convidou para um café. Eu então voltei ao estúdio 811, no oitavo andar, apanhei minha bolsa e rapidamente desci. Munida de passaporte e alguns euros, fui com ela e sua filha a um café próximo. Sentamos à mesa e a primeira pergunta que ela me fez foi se tenho filhos. Respondi que ainda não, mas que os quero, loguinho, loguinho. E ali, com esta frase, estava iniciado um diálogo povoado de falas líricas. O encontro teve muito sabor, eu falei bastante das minhas viagens, sobretudo, a que fiz na companhia de outros estudantes por nove países da América do Sul (cada vez mais me asseguro da riqueza desta experiência). A parte desta linda imersão em terras sulamericanas que mais destaquei foi a conversa de uma tarde inteira com as Madres de Plaza de Mayo. Laurence adorou saber deste contato e quer mais notícias sobre elas.

Contei também que há pouco mais de dois anos estive em Portugal, e este pronunciamento desencadeou entre nós três (Laurence, sua filha e eu) uma conversa sobre a língua portuguesa, em português. É que Laurence é casada com um paraense, viveu longo tempo no Brasil e tem filhas brasileiras. Logo, nossa interação aconteceu ancorada em minha língua-mãe. Engraçado que em nenhum momento acionei o caderninho para agendamentos formais; nada de exigências, acordos, regras. Externei o quanto me encantei ao ver as mulheres cuidando dos seus filhos, em Strasbourg. Ela confirmou este traço da mulher francesa, mas não chegou a apontar as razões socioeconômicas e políticas para que esta realidade seja vivida por aqui. Mas, claro, que eu, com meu senso poético-jornalístico-sociológico, vou mais adiante nesta investigação.

A soltura tomou conta da nossa mesa e eu ainda ganharia um presente: o empréstimo de uma bicicleta. Sim, Laurence me cedeu uma antiga sua, que estava guardada no estacionamento da Université de Strasbourg. Como a universidade fica bem pertinho de onde estou alojada, fomos lá e rapidinho estava eu detendo uma magrela. Bicicleta aqui é o veículo predileto e a que neste momento está sob meu poder já me rendeu deliciosas voltinhas pelas ruas floridas. Obá, esta experiência eu classifico como sensacional! Ah, minha bicicleta temporária também já agrupou em torno de mim pelo menos uma narrativa divertida e outra que confirma exatamente aquilo que contribui para a construção da pergunta que quero deixar expressa, ao final deste escrito. Mas, as histórias produzidas a partir do meu novo veículo, assim como meu primeiro almoço no restaurante universitário, ficarão para outro instante.

Bom, gente, haja curiosidade. Soma-se tudo, como eu falei, num quantitativo admirável, e vai se acoplando a meu corpo. E olha o corte rolando! É que houve mudança de percurso na produção textual que aqui se apresenta. Ôps, mas vocês estão de acordo que o encontro com Laurence e Julina, que atravessou justificadamente esta composição, foi digno de uma narrativa feita no calor da hora. Afinal, é tão saboroso o cheirinho da escrita-pós-acontecimento vivido. Adoro! Prometo, depois, noutro momento, escrever sobre aquilo que aqui estaria. Ah, aproveito para dizer que a partilha das minhas experiências neste espaço vai acontecer obedecendo ao ritmo frenético do ziguezague. Vou usar e abusar do movimento espiralado da memória.

Sim, mas voltando ao questionamento que eu desejo deixar aqui impresso, vamos lá. A interrogação foi estimulada pelos delicados encontros que tive desde que desembarquei em terras novas, de peito aberto e com uma sede gigantesca de conhecer o que virá. Os encontros aos quais me refiro são, tanto os mais demorados, como o que aconteceu com Laurence e Julina, quanto os mais efêmeros, como o que tive com uma senhora gorduuuuucha e que, me vendo examinar no chão da sua rua dois bichinhos que me pareceram joaninhas, se juntou a mim e ali ficamos ela e eu rindo, contemplando a natureza e nos fazendo uma deliciosa companhia.

Cenas, como esta, fizeram brotar em minha cabeça o seguinte questionamento: "A gentileza é artigo brasileiro, conforme acreditamos ser, ou é artigo universal que dispõe de diferentes idiomas"?

19 de abril de 2011

Algumas horas depois que cheguei, de peito aberto, fiz a primeiríssima foto de Strasbourg




Propositadamente fiz esta foto, sem escolher o melhor ângulo, sem planejar, apenas querendo absorver e ritualizar a minha primeira imagem sobre a cidade que agora me abriga. Há algumas outras fotografias já feitas. Aos poucos, partilho.

18 de abril de 2011

Esta música me inicia na França



O riso me tomou e a lágrima também. As emoções mais gostosas que eu poderia sentir me chegaram, quando o voo AF 455 da Airfrance, que me trazia na poltrona J42, pousou, ontem, às 08h30, no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. O mapa de aviação na tela em minha frente dizia que estávamos muito distantes do ponto de onde havíamos saído, e eu - confesso - não sabia o que isto me dizia naquele momento, em que me via chegando na Europa para uma experiência de um ano na cidade de Strasbourg. Só sei que minhas mãos estavam geladas, mas o coração sentia um aquecimento sem igual. Pus o fone de ouvido, calei-me e exatamente na hora em que o avião começava sua aterrissagem, a canção que tocava na estação, que escolhi ouvi dentre as mais de 20 opções oferecidas pelo serviço de bordo, foi nada mais, nada menos do que "Samba da Rosa", de Vinicius de Moraes. As lágrimas me tomaram e, olhando para a janela, eu silenciosamente disse: "Querida França, me recebe em seus jardins, trago pétalas em mim. Sou uma rosa, deixe-me ser uma das suas flores e sigamos juntas". Sei que não havia melhor forma de me aproximar do solo francês. Afinal, houve poesia e aqui é primavera.

12 de abril de 2011

Aprontando-me

Pus meu computador no quarto, misturei-o às roupas que estão passando por um processo de seleção, escutei música no volume máximo, emiti a palavra voo, escrevi o que é ser - na perspectiva que veio em meu coração - ouvi os pássaros de uma varanda situada num bairro feminino, esvaziei gavetas, cortei papéis, peguei saco colorido, enchi seu interior com coisas soltas, relatei algumas histórias recentes, lembrei de uma noite mágica, ouvi a música "Queda livre", da banda Cascadura, e, enfim, comecei a arrumar as malas em direção à França. Obedecendo a uma sequência nova de atos, avancei mais um passo na travessia que passa por dentro de um sonho, em vias de realização. Sou meu quarto em ritmo de desmontagem, sou o começo da construção de um cantinho que será meu e ainda está na condição do não-visto. Que chegue.

29 de março de 2011

Olha eu na Embaixada da França


Expansão gostosa dentro de mim, corrida desvairada lá fora, documentos providenciados, imensidão bonita chegando sob o nome França, este lugar onde a revolução brotou e alterou algumas práticas no mundo; uma mãe incrível, que me diz: "seja feliz, minha filha, não se precipite, siga seu caminho, vá em frente, você pode, você é luz, você é guerreira, você é merecedora porque você batalha"; e um pai, que me aplaude, que me faz me sentir parte da sua história, fruto do seu suor derramado, o qual, junto com o da minha mãe - trabalhadora vigorosíssima -, compõe o alicerce da mulher que sou, hoje. Com um pai e uma mãe tão participativos em minha caminhada, o que eu posso mais querer desta vida no que diz respeito ao lugar de filha? Amo o homem e a mulher que me colocaram no mundo. Meu Deus, e quanto os admiro! Quanto sou grata por tudo que fizeram e fazem por mim. Obrigada, meu Deus, muito obrigada!

28 de março de 2011

Sim

Tenho tanto a comemorar que não estou acertando. Deus me diz por onde posso começar. Solto fogos? Ou cantarolo sob a chuva, me deito para ser tomada pelo sol, abro uma champanhe e me entrego às águas do mar, com toda a efervescência que me é peculiar? Amo saber que a vida é feita de presentes.

Emoções

O que talvez explique meu silêncio e também minha fala confusa seja minha intensidade, meu ritmo, meu senso de profundidade em tudo que me ocorre. Sou demasiadamente dada ao sentido pleno da caminhada. Tenho vivido dias com sabores de vitória e de tudo mais que este sentimento carrega em suas entrelinhas. Não posso deixar de dizer que meu coração segurou minha mão e eu conheci sensações nada sabidas por mim. E, com receio de me acusar de não ter absorvido o momento com tudo que ele me aponta e me oferece, sucumbi a uma certa insistência.

14 de março de 2011

Quebrada estou

Não sei onde depositar a crença que se desconfigurou, em virtude da coexistência de forças desconhecidas que passou a habitar meu eu, o qual borbulha como água antes de receber o pó de café.

Parece-me que vou precisar inventar um recipiente para seu armazenamento.

Pra completar, o local em mim feito para eu acomodar minhas inquietantes sensações sumiu faz tempo, e o corrimão, que me permitirá chegar ao alto da certeza do que eu busco, ficou tão escorregadio, que eu parei um pouco no caminho.

Preciso respirar e beber água para continuar seguindo.

Mas, enquanto me recomponho, dou a mão às vozes que me apoiam; e aos ombros que me acolhem eu dou o meu corpo e conto os meus segredos.

Esta música tem a dizer, hoje

9 de março de 2011

Outro agito

"Que tal uma suspensão dos já conhecidos circuitos para ferver o corpo de outro modo?" Disse-nos de um jeito quase sem querer a desregrada e boa folia de Salvador.

Recebemos o sinal,
não pensamos duas vezes,
obedecemos,
nos organizamos, sem pressa,
sob o olhar do dia que nascia,
e nos lançamos em outro agito.

Resultado: o carnaval 2011 passou em nossa pele sendo também motivo para mergulharmos nas águas do rio Paraguaçu e cruzarmos com o inédito da geografia, ao pisarmos, nada mais, nada menos, do que o lugar onde o vento faz a curva.

Sim, sim, estivemos lá. Trata-se de um recanto guardado no povoado de Coqueiro, um dos pedaços ribeirinhos do mundo, onde somos recebidos com luz incrível, cerveja gelada, fusca azul estacionado na ladeira, samba dos homens-Batman e a melhor mariscada da redondeza.

Ah, além disso, há também um punhado significativo de moscas que ali estão - acredito - para que não nos desconectemos por completo da necessária realidade.

E toda esta farra boa nos tomando porque buscamos alimentar os dias de Momo com as fantasias e as máscaras de Maragojipe. Então, guiados por este desejo, pegamos a estrada, nos entregamos ao astral dos amigos, nos hospedamos na maravilhosa pousada Recanto do Rio, em Cachoeira, e lá fomos nós ao encontro do riso, da dança solta, das imagens tocantas, da roda que gira no sentido da euforia pura e da purpurina leve.

É isto: este ano, optamos por não nos escondermos de um tipo de alegria que brota, quando nossos sentidos estão completamente voltados ao exercício da brincadeira e totalmente despreocupados com a sensação de insegurança.

Vixe como é bom...

2 de março de 2011

Escrito para abrir a semana

1) compor para descompor,

2) revisar minha interpretação de mundo,

3) construir perguntas sobre o que eu acreditava já saber,

4) rimar pensamento com sentimento,

5) perceber o limite dos meus códigos de convivência com o outro,

6) customizar, com flores bordadas, as feridas abertas em mim,

7) aliar-me ao ofício do sol,

8) usufruir do tempo,

9) desopilar, perdoar, sentir,

10) seguir crendo no amor,

eis meus dez compromissos para esta semana.