Mãos intolerantes com o descompasso da semana,
uma necessidade de eliminar contratempos,
e a certeza de que, para algumas coisas,
não me cabe ofertar quem eu sou.
Quero o acerto como alvo,
e a liberdade para não investir naquilo que,
por não ter tom de gente,
não me rende o tipo de emoção que eu me ocupo em sentir.
Gosto do que me toca o peito.
29 de abril de 2010
27 de abril de 2010
15 de abril de 2010
Corresponsabilidade não assumida
Eu estava acompanhando a edição do Jornal Hoje de alguns dias atrás, no período em que as chuvas geraram profundos danos no Rio de Janeiro, quando a jornalista Sandra Annenberg, âncora do Jornal, após a exibição das imagens que demonstraram a dor das famílias cariocas que, irremediavelmente, perderam tudo: pessoas, casa, documentos e tudo mais que não há nomes para nomear, disse: "nós, jornalistas, somos treinados para cobrirmos tragédias". Não acreditei no que eu escutei e tive uma reação de repulsa a esta afirmativa. Sou jornalista. Estudei na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde tive professores e professoras de todos os tipos, mas nenhum me ensinou a cobrir tragédia, nem eu nunca achei que pudesse ser este um aprendizado a colher na graduação em Comunicação Social.
Não, Sandra Annenberg, nós, jornalistas, não somos treinados/as para cobrirmos tragédias. Se você aprendeu este equívoco na universidade, saiba que erraram, e muito, em sua formação. Mas, ainda que tenham lhe dito esta insanidade, você, no largo exercício da profissão, poderia ter investido no desmanche deste absurdo e construído uma percepção mais humanística do papel do/da jornalista na sociedade, que para ficar somente na acepção da professora Raquel Paiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), este/a seria - guardadas as devidas proporções - o que equivaleria ao narrador, narradora da sociedade, leitura que - eu sei - merece ponderações, uma vez que narrar a vida social é uma possibilidade que deve ser exercitada por qualquer cidadão/cidadã. Afinal, a Comunicação é um direito humano.
Mas, quando chama atenção para o lugar da narrativa sobre aquilo que pipoca na vida social, a professora Raquel Paiva alerta para o olhar que as notícias devem lançar sobre a realidade. Cabe ao jornalismo a observância daquilo que transcorre nos quatro cantos de uma cidade, no sentido de detectar as cenas urbanas que, se comunicadas, podem ser alvo de mudanças. Então, pergunto: por que a Rede Globo de Televisão, dispondo de significativas equipes de repórteres no Rio de Janeiro, não denunciou os riscos de desabamento no Morro do Bumba? Mesmo contando com helicópteros e outros equipamentos de observação da realidade, no estado que inclusive é a preferência da Globo para a gravação de novelas e outros produtos, a emissora não noticiou a grave situação do Morro, onde o lixo era o alicerce das casas, e assim não pressionou o poder público para que este tomasse a providência de realocar as famílias para um espaço onde houvesse dignidade e bem-estar social.
Após o desastre que retirou a vida de mais de 40 pessoas - as estimativas é que este número cresça, pois os bombeiros ainda não concluíram o trabalho de resgate dos corpos - a frase a ser dita não é: "somos treinados para cobrirmos tragédias". Não vou negar que o exercício do jornalismo cruza com situações trágicas no caminho, mas, no caso do Morro do Bumba, a tragédia poderia ter sido evitada; havia estudos acadêmicos feitos há um bom número de anos, e talvez, se o jornalismo realmente cumprisse seu papel de revelador da dinâmica da vida social e denunciasse aquela realidade, fazendo pressão ao poder público, outra cidade poderia existir, hoje.
Não, Sandra Annenberg, nós, jornalistas, não somos treinados/as para cobrirmos tragédias. Se você aprendeu este equívoco na universidade, saiba que erraram, e muito, em sua formação. Mas, ainda que tenham lhe dito esta insanidade, você, no largo exercício da profissão, poderia ter investido no desmanche deste absurdo e construído uma percepção mais humanística do papel do/da jornalista na sociedade, que para ficar somente na acepção da professora Raquel Paiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), este/a seria - guardadas as devidas proporções - o que equivaleria ao narrador, narradora da sociedade, leitura que - eu sei - merece ponderações, uma vez que narrar a vida social é uma possibilidade que deve ser exercitada por qualquer cidadão/cidadã. Afinal, a Comunicação é um direito humano.
Mas, quando chama atenção para o lugar da narrativa sobre aquilo que pipoca na vida social, a professora Raquel Paiva alerta para o olhar que as notícias devem lançar sobre a realidade. Cabe ao jornalismo a observância daquilo que transcorre nos quatro cantos de uma cidade, no sentido de detectar as cenas urbanas que, se comunicadas, podem ser alvo de mudanças. Então, pergunto: por que a Rede Globo de Televisão, dispondo de significativas equipes de repórteres no Rio de Janeiro, não denunciou os riscos de desabamento no Morro do Bumba? Mesmo contando com helicópteros e outros equipamentos de observação da realidade, no estado que inclusive é a preferência da Globo para a gravação de novelas e outros produtos, a emissora não noticiou a grave situação do Morro, onde o lixo era o alicerce das casas, e assim não pressionou o poder público para que este tomasse a providência de realocar as famílias para um espaço onde houvesse dignidade e bem-estar social.
Após o desastre que retirou a vida de mais de 40 pessoas - as estimativas é que este número cresça, pois os bombeiros ainda não concluíram o trabalho de resgate dos corpos - a frase a ser dita não é: "somos treinados para cobrirmos tragédias". Não vou negar que o exercício do jornalismo cruza com situações trágicas no caminho, mas, no caso do Morro do Bumba, a tragédia poderia ter sido evitada; havia estudos acadêmicos feitos há um bom número de anos, e talvez, se o jornalismo realmente cumprisse seu papel de revelador da dinâmica da vida social e denunciasse aquela realidade, fazendo pressão ao poder público, outra cidade poderia existir, hoje.
6 de abril de 2010
Descolada
Estou me soltando da âncora que firma o passo no mesmo lugar. Por um preço que ainda não sei qual é, resolvi embarcar em novas maneiras de estar no mundo. Adoro poder ser quem eu ainda não fui. Sedenta estou. Curiosa também. Que venha a novidade que eu espero, e eu alcance o resultado que quero.
11 de março de 2010
Em crescimento
Era eu na janela, vendo, escutando, sugando, e de tudo querendo pegar, lamber, sentir, e de tudo querendo cheirar, colher, conhecer. Era eu caminhando pelas calles, com ou sem pressa, com ou sem caneta nas mãos, e de tudo querendo colar na sola dos sapatos, pendurar nas orelhas, registrar na adorável memória, que tem lógica própria, dispõe de poder de decisão e sabe o que fazer com todas as experiências que lhe apresentamos. Era eu deslizando na pele das cidades, e de tudo querendo depositar no coração, trazer na bagagem, que ficou do tamanho que eu não sei dizer, mas eu segurei todinha, inteira, e sem reclamar. Uma grande-extensa-gigante bagagem, que ficou tão bonita! E com um sabor delicioso de vida. Tenho notado que eu nem sei como armazená-la. É sério, não adianta, já tentei, busquei como pude, mas não me chegam as medidas que eu necessito para registrar o que eu vivi ao longo de 55 dias dedicados ao desbravamento da América do Sul. Sim, vivemos um desbravar, através do nosso amado ônibus, que após nove dias de viagem entre Caracas e Salvador, apontou, hoje, em terras soteropolitanas. Ai, foi tão bom revê-lo! Olhei-o com carinho, cheguei pertinho, falei com Domício, um dos iluminados motoristas cujo filho aniversariou também ontem, e, para sua surpresa, seu bolinho foi repartido com a presença do pai querido. Viva! O sol estava forte, quando me encontrei com o nosso firme veículo e, passados os primeiros minutinhos de contemplação, entrei, andei em seu corredor e apanhei pertences meus que não vieram comigo, no último dia 03, quando fizemos de avião o percurso Caracas - São Paulo - Salvador. Desde a partida da Caravana, no dia 8 de janeiro, a proposta era termos uma atividade final em Brasília, o que implicava em irmos de ônibus da Venezuela para o estado de Roraima; de lá voaríamos para a capital brasileira, onde cumpriríamos alguns compromissos e pegaríamos outro avião para nossa querida Bahia. Ou seja, no planejamento da viagem já havia um trecho aéreo, mas este foi antecipado porque nossa programação em Brasília não aconteceu. As pessoas que nos receberiam nos ministérios não tinham espaço na agenda. Sendo assim, já em Caracas entramos no avião que nos trouxe para Salvador, enquanto o Inulatão seguia pelas estradas. Foi um dia inteiro dentro de dois aviões impessoais, se comparados ao nosso ônibus, companheiro de fé que se tornou nosso xodó: lindo, com as bandeiras dos países pintadas em sua casca; aconchegante, ágil e fiel, pois não nos deixou na mão em nenhum momento. Mas, eis que na volta para casa o abandonamos e nos rendemos à impessoalidade das aeronaves da TAM. Contudo, como estávamos em total pique de viagem boa, logo pusemos festa no ambiente, e o melhor foi notar que nossa festa se somou à linda recepção que tivemos no aeroporto. Foi uma delícia ver nossas famílias, amores e amigos nos aguardando. Chegamos envoltos em nossa blusa amarela, como se fôssemos a seleção brasileira de vôlei. Houve gritos, risos, aplausos. Carregamos a bandeira do povo indígena nas mãos, e assim espalhamos as suas cores para todos que nos esperavam. Agora, fecho os olhos, passo em revista alguns acontecimentos. Como é gratificante ver que, a partir de uma inesquecível viagem, eu somei muita energia, cavei o que eu ainda não sabia que havia no mundo, elasteci as dimensões do meu saber, mas constatei principalmente o gigante não-saber que me habita. E, de repente, quando me procurei, não tive dedos para imediatamente escrever, após meu desembarque em Salvador. Mas, cheguei e estou aqui, seguindo, sendo e crescendo mais latina.
2 de março de 2010
E renasce a América Latina
Meu coração palpita, meus olhos me louvam por todos os lugares para aonde os levei; devolvo-lhes o agradecimento e juntos entramos num profundo ato de comunhão. Linda é nossa festa. Lindo é o que carrego em meu peito agora, agora que percorri nove países da América do Sul e me sinto mais latina. São muitas as palavras que eu preciso liberar, neste momento em que estou no aeroporto de volta para Salvador. Ontem, escrevi sobre isso, mas perdi o texto. A Caravana segue para casa. Há muito o que ser dito e logo mais eu reapareço. Sou pura vontade de partilhar os novos aprendizados. Preciso ir e deixo a Venezuela, mostrando o riso das crianças do Paraguai e da Bolívia.
1 de março de 2010
28 de fevereiro de 2010
Domingo de olho em tudo
Obá! Hoje é domingo e eu acordei bem mais tarde do que de costume, não tomei café e o almoço aconteceu na vizinhança do hotel onde estamos, que vale dizer, é uma "espelunca". Uma cara espelunca. Hospedagem em Caracas, ou melhor, na Venezuela, é caríssima. Para se ter uma idéia, no caminho para cá, paramos na cidade de Valencia. Ali pretendíamos almoçar, já quase na hora da janta, e também dormir, mas não conseguimos hotel, e tivemos que esticar a viagem direto para cá, com fome e já com a noite sobre nossas cabeças. O bom foi ver a lua me lendo atrás da janela do Inulatão. Fiquei arrepiada com sua luz.
Hoje foi um domingo revestido de curiosidade. Depois da comida chinesa - sim, foi este o nosso cardápio, hoje, pois não é fácil conseguir lugar que aceita cartão por aqui, e a coordenação da Caravana não tinha conseguido sacar bolívares -, caminhei pelas ruas de Caracas procurando as pistas para compreender a Venezuela, perceber mais este país que nos chega, através das notícias, como um lugar confuso e de polarizações pró e antiChávez, de modo que se torna relativamente difícil compor uma opinião sobre seu momento político.
E preciso dizer: um dia é quase nada para compor uma noção sobre uma cidade do porte e da complexidade de Caracas. Logo, continuo no ritmo do não-saber, mas este ritmo se confronta, agora, com uma necessidade alucinante de absorver o máximo que eu puder deste país latinoamericano, que assume uma postura bastante crítica em relação aos Estados Unidos, ainda que continue lhe vendendo petróleo. Contradições é o que não falta nestas bandas de cá. Haja leitura, reflexão, pesquisa para contemplar o horizonte de ambivalências que se nota por aqui.
Ah, e preciso revelar que existe em mim uma vontade grande de detectar o que a sociedade venezuelana pensa de Hugo Chávez, o que me faz perguntar a muitas pessoas: "o que você acha de Chávez?". Lancei esta interrogação a uma jovem que estava no mesmo vagão do metrô que eu. Ela me disse: "ele faz boas coisas para a Venezuela". Não deu tempo saber que coisas boas são estas. Minha estação chegou, dei-lhe tchau e desci, sabendo que os domingos são sempre muito movimentados no centro de Caracas.
Foi ela quem me confirmou esta informação, informação que eu estava já sentindo com os olhos e os ouvidos, pois as ruas do centro são muito agitadas em pleno domingo. Há vários vendedores ambulantes e as praças estão habitadas. Além disso, haja sirene: bombeiro, ambulância e Deus sabe mais o quê. Como não podia deixar de ser, fiquei com muitas perguntas, e o que por ora posso dizer é que, em Caracas, praticamente todos os moradores têm carro, embora muitos sejam um antiguíssimo Chevrolet, imenso e que, para ser estacionado, exige, é claro, muito espaço. Além disso, notei que os os muros aqui são grandes telas que expressam o humor do venezuelano. Haja pintura, pichação, recados políticos.
E se você faz planos de passar uns dias na capital venezuelana, prepare-se para dançar rumba, um ritmo caribenho bastante comum por aqui. Nossos ouvidos cruzam o tempo todo com este tipo de sonoridade, que nos faz balançar o esqueleto de um jeito bem gostoso. Fiz isso hoje e foi o máximo. Estávamos andando pelo centro e nos deparamos com uma praça, onde casais dançavam e se esbaldavam sem cessar. Entreguei-me ao improviso dos passos junto com o versátil caravaneiro Ramon, que ainda foi mais além e dançou com uma linda e flexível senhora de cabelos brancos e olhos azuis. Foi muito divertido.
E, para conferir, é só acessar o link http://subliterato.blogspot.com/2010/03/integracao-venezuela.html
Hoje foi um domingo revestido de curiosidade. Depois da comida chinesa - sim, foi este o nosso cardápio, hoje, pois não é fácil conseguir lugar que aceita cartão por aqui, e a coordenação da Caravana não tinha conseguido sacar bolívares -, caminhei pelas ruas de Caracas procurando as pistas para compreender a Venezuela, perceber mais este país que nos chega, através das notícias, como um lugar confuso e de polarizações pró e antiChávez, de modo que se torna relativamente difícil compor uma opinião sobre seu momento político.
E preciso dizer: um dia é quase nada para compor uma noção sobre uma cidade do porte e da complexidade de Caracas. Logo, continuo no ritmo do não-saber, mas este ritmo se confronta, agora, com uma necessidade alucinante de absorver o máximo que eu puder deste país latinoamericano, que assume uma postura bastante crítica em relação aos Estados Unidos, ainda que continue lhe vendendo petróleo. Contradições é o que não falta nestas bandas de cá. Haja leitura, reflexão, pesquisa para contemplar o horizonte de ambivalências que se nota por aqui.
Ah, e preciso revelar que existe em mim uma vontade grande de detectar o que a sociedade venezuelana pensa de Hugo Chávez, o que me faz perguntar a muitas pessoas: "o que você acha de Chávez?". Lancei esta interrogação a uma jovem que estava no mesmo vagão do metrô que eu. Ela me disse: "ele faz boas coisas para a Venezuela". Não deu tempo saber que coisas boas são estas. Minha estação chegou, dei-lhe tchau e desci, sabendo que os domingos são sempre muito movimentados no centro de Caracas.
Foi ela quem me confirmou esta informação, informação que eu estava já sentindo com os olhos e os ouvidos, pois as ruas do centro são muito agitadas em pleno domingo. Há vários vendedores ambulantes e as praças estão habitadas. Além disso, haja sirene: bombeiro, ambulância e Deus sabe mais o quê. Como não podia deixar de ser, fiquei com muitas perguntas, e o que por ora posso dizer é que, em Caracas, praticamente todos os moradores têm carro, embora muitos sejam um antiguíssimo Chevrolet, imenso e que, para ser estacionado, exige, é claro, muito espaço. Além disso, notei que os os muros aqui são grandes telas que expressam o humor do venezuelano. Haja pintura, pichação, recados políticos.
E se você faz planos de passar uns dias na capital venezuelana, prepare-se para dançar rumba, um ritmo caribenho bastante comum por aqui. Nossos ouvidos cruzam o tempo todo com este tipo de sonoridade, que nos faz balançar o esqueleto de um jeito bem gostoso. Fiz isso hoje e foi o máximo. Estávamos andando pelo centro e nos deparamos com uma praça, onde casais dançavam e se esbaldavam sem cessar. Entreguei-me ao improviso dos passos junto com o versátil caravaneiro Ramon, que ainda foi mais além e dançou com uma linda e flexível senhora de cabelos brancos e olhos azuis. Foi muito divertido.
E, para conferir, é só acessar o link http://subliterato.blogspot.com/2010/03/integracao-venezuela.html
Vermelhos na Linha do Equador
Meu Deus, que necessidade de falar de todas as pessoas que conheci, de todos os postos de gasolina que vi, de todos os pequenos hotéis onde meu cansaço foi despejado, de todas as pequenas cidades que cruzei! Que necessidade de partilhar o sabor das comidas que pus na boca, o aroma das flores que cheirei! Quantas narrativas ainda não dividi, quantas descrições que não fiz, isso porque de tanta vida me inundando, minhas mãos se tornaram insuficientes para darem conta de contar tudo, e agora eis que em meu arquivo se sobrepõem a experiência única de ter pisado a Linha do Equador, o passeio muito tocante à Isla del Sol, na parte boliviana do Lago Titicaca, as enriquecedoras visitas aos museus e toda a programação oficial da Caravana e que consiste em reuniões em embaixadas, visitas às universidades e outros espaços institucionais. Eita... ruma de acontecimento derramando sem parar sobre mim! Neste momento, um monte de episódios pula no meu interior querendo virar história contada, mas estou com sono e preciso dormir. Contudo, para eu não me sufocar com o acúmulo dos capítulos, sinto-me chamada a espalhar o pensamento que me veio quando trisquei a Linha do Equador: lembrei-me das aulas de geografia, revisitei as noções de latitude e longitude e me dei conta de que, quando criança, pensava eu que a única linha que divide o mundo é a Linha do Equador. Vislumbrei a minha doce inocência, me deliciei com a minha meninice e fui me dando conta de que, à medida que fui me tornando mulher, fui percebendo que tantas outras linhas dividem o mundo em incontáveis mundos... Rezei para que as desnecessárias linhas se desfaçam.
27 de fevereiro de 2010
Com toda minha curiosidade em Caracas
Falta poucos dias para finalizarmos o giro pela América do Sul. Meu Deus, que quantidade nova de vida vejo colada em minha pele! A sensação é de aumento de quem sou. Manuseei muitas emoções e cresci em cada canto onde dormi, acordei, comi, pisei e me fiz gente. Maravilhoso colher cada sorriso, ouvir cada palavra dita e sacudir meu espírito latinoamericano de um jeito tão único. Ôps! E ainda há o que eu tocar de novidade, pois, na última sexta-feira, cruzamos a fronteira para o nono e último país a ser conhecido. Por volta das 14 horas, adentramos, sem impeditivos, o país onde combustível vale muito pouco e comida custa literalmente os olhos da cara. Estamos na Venezuela. Dormimos em San Cristóbal; inclusive devo dizer que é a segunda cidade com este nome que passamos, a outra fica na Bolívia. Agora escrevo de Caracas e preciso dizer que abastecer nosso ônibus na estrada foi bem mais barato do que o que pagamos por um arepa (bolo feito de milho que é servido com os mais variados recheios e é bem popular nestas bandas de cá). Colocamos 297,9 litros de diesel no tanque do Inulatão, o que nos custou 14,26 bolívares, sendo que cada bolívar vale R$ 1,50 (Um real e cinquenta centavos); já pelo arepa pagamos 20 bolívares. Que desproporção! Logo, não dá pra fugir do senso de observação minuciosa estando aqui, e tenho muito a descobrir nestas terras onde Hugo Chávez vem deixando fortes marcas. No caminho para cá conversei com Antônio e Ademar, dois caminhoneiros com que prosei por um bom tempo, enquanto esperávamos a liberação da estrada, que estava com o trânsito suspenso devido às obras de manutenção de uma ponte. Foi um papo ótimo, que me rendeu muitos aprendizados. Para Antônio, o presidente Hugo Chávez está realizando um comunismo disfarçado e ele ainda me disse que de todos os estados da Venezuela somente dois não são governados pelo partido de Chávez. Falamos de muitos aspectos da vida venezuelana, ele mostrou sua admiração por Lula, pois tem um cunhado que há três meses trabalha na Esso, em São Paulo, e tem lhe dado boas notícias de como vive lá, e, por fim, me sugeriu que eu vá a um supermercado, em Caracas, pois, segundo ele, é uma experiência muito curiosa que eu não posso deixar de ter, e ao saber que faço parte de uma Caravana que está cruzando de ônibus nove países da América do Sul, ele me disse: "não há nada que substitua isso que você está vivendo, menina, os livros não dão todo este conhecimento"! Quase chorei.
25 de fevereiro de 2010
Pausa para o sono
Sugiro para mim o que vem em minha cabeça. E o que vem é bonito, alegre, repleto. À medida que o percurso até a Venezuela vai sendo tragado e a distância vai se reduzindo, alcanço uma inesquecível ciranda de cores e vejo as montanhas beijarem as nuvens sem medo e sem pressa. Contemplo tudo. Avisto as árvores floridas contornando a ponta da estrada onde as rodas do ônibus passam, e com este feito preencho-me do total respiro do mundo. Ouço meu coração agradecer o alimento que lhe ofereço, levo para dentro de mim uma nova energia e nada tensiono, nada seleciono, nada desrespeito. Noto que existe uma rodovia que é puro ziguezague, com uma paisagem magnífica em volta e muito movimentada pela presença de caminhões da marca Kenworth. Vejo-me dentro deste cenário. Quando pensei isto em minha vida? Somos mesmo feito do que virá. Agora estou numa lan house colada no hotel onde vamos dormir esta noite. O nome da cidade é Bucaramanga e fica em terras colombianas. Pelo menos seis horas nos afastam da fronteira que dizem ser uma das mais desafiadoras. Vou rezar para tudo dar certo. Fui. O sono me toma.
Novas estradas
São 4h10 em Bogotá. Minhas malas estão na porta do hotel esperando o ônibus para seguirmos rumo à Venezuela. Aqui deixei todas as minhas canetas coloridas, pois meu estojo se foi junto com meu pen drive. Perdi esta parte da bagagem. Procurei em vários pontos e não encontrei. A partir de hoje vou ter que recorrer a novas canetas para escrever sobre as novas descobertas. Quais paisagens virão agora? Tão bom não saber e saber que vão desabrochar! Meu culto à janela do ônibus continua. Minha filmadora e minha cadernetinha sabem como se relacionar com o caminho. Meus pés apontam para frente e pedem versos. Eu os levo, eles me levam. Seguimos.
24 de fevereiro de 2010
O que vejo no café da manhã
Câmera fotográfica com defeito, vestido amarrotado, alma ampliada, fome, quase todas as malas nas mãos e, no peito, a sede acesa para me apaixonar por mais uma cidade: sou Sarah desembarcando, às 23h do último domingo, na Carrera 4, número 13 - 12, no Centro Histórico da Candelária, parte antiga da cidade de Bogotá, onde se vê paredes coloridas e muros artísticos. Mas, deixei suas cores para o outro dia. Meu sono estava maior do que a curiosidade, e assim que entrei em meu quarto, dormi; não fui buscar a cidade. Estava cansada do percurso de Quito para cá, uma estrada que, embora muito bela, oferece riscos de acidente e uma quantidade de militares que causa estranhamento aos nossos olhos. Devido à existência inexplicável das FARC no território colombiano - sim, aqui ninguém sabe explicar porque existem e o que querem, - as rodovias são completamente vigiadas por soldados do Exército fortemente armados. Mas, depois falo mais sobre este assunto. Estou com dificuldade para partilhar novidades no blog; o hotel onde estamos oferece um serviço de internet muito ruim. Então, eis que estou sem conexão e sem câmera para registrar o que meu corpo alcança, visto que ela caiu das minhas mãos e desde o Equador vem limitando sua atuação: está fazendo poucos cliques. Busquei a assistência da Sony aqui, mas para os técnicos resolverem o problema, eles precisam de mais tempo do que vou passar nestas paragens. Restou-me, assim, elaborar uma idéia sobre a pane na máquina fotográfica, e a tal idéia diz respeito ao que Bogotá quer de mim. De repente, ela me pede que eu a contemple, sem me preocupar em apertar o botão para transformá-la em imagem "congelada". Estou respeitando isso, rs... Bom, necessito ir, o almoço me chama, mas antes quero dizer que Bogotá é uma cidade muito lindinha, com construções de tijolinhos à mostra, porções de verde que apaziguam e uma série de aspectos que não tenho como mencionar neste texto, devido à falta de tempo. Contudo, esta cidade, que vive completamente atormentada pela existência das FARC, oferece para os meus olhos, no café da manhã, uma graciosa rua de casas bonitinhas, tendo ao fundo uma montanha verde e nublada. Adoro me sentar na aconchegante casa de pães, doces e tortas, na rua onde estou hospedada. É uma rua de mão única. Meu coração me informa que é a primeira hospedagem numa rua deste tipo ao longo da viagem. O que isso significa? Não sei, mas sei que todas as ruas por onde passei: as asfaltadas, as de areia, as de lajota, as de pedra... se encontram dentro mim e fazem uma festa de novos sentidos e novos sentimentos.
21 de fevereiro de 2010
Minha boca carrega palavras
Acabamos de parar para almoçar e o restaurante dispõe de acesso à internet. Temos como destino Bogotá e não posso deixar de usufruir desta condição: sentir o prazer de escrever direto do meio do caminho. Por ora, basta-me escrever aquilo que está impresso no meu paladar, que neste momento, está saboreando um delicioso trucha com salada. Em minha língua encontrei a palavra "impulso", e com ela vou seguir para sentir ainda mais. Respiro a América Latina, piso firme e impulsivamente almejo.
O carinho de San Pedro de Atacama
Viver grandes doses de experiências seguidas não permite que o relato emerja logo depois do vivido. Alguns episódios pedem mais tempo para serem digeridos e há várias situações deste tipo na viagem, é claro. O deslocamento do Chile para a Bolívia, por exemplo, ainda me renderá muitas leituras, outras extrações. Tudo que eu vivi naquele trajeto me toca de um modo bastante singular. E foi exatamente neste caminho que eu me deparei com San Pedro de Atacama. Era sábado e fazia um sol gostoso quando chegamos lá. Ali, me senti acarinhada pelo lugarejo onde há hotéis, restaurantes, cafés, campings, serviços de aluguel de bicicletas e muito mais. Naquelas ruas rodeadas de barro, vivendo e vendo as casas com parede de adobe e sentindo um aconchego sem igual, pois na noite anterior tínhamos dormido dentro do ônibus, em Antofagasta, porque não encontramos hospedagem, me lembrei do fragmento de um poema de Manoel de Barros, que diz:
"Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham
os reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa
Eu tenho gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de parede
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio
tal um verme que iluminasse"
Do poema Seis ou treze coisas que aprendi sozinho
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