Em 1943, tendo como finalidade
libertar a França do poder nazista, foi criado o CGE – Comité general d’études (Comitê Geral de Estudos) para definir as
medidas legislativas que resultariam na Liberação. Os ataques aos alemães foram
aumentando e, entre as operações mais espetaculares, está a explosão com
dinamite, em setembro de 1943, da Usina Elétrica de Chalon-sur-Saône por um
grupo da MUR – Mouvements unis de la
résistance (Movimentos Unidos da Resistência).
De fato, crescia o
combate às forças alemães, mas recrudescia ainda mais a perseguição e prisão de resistentes,
que costumavam levar consigo uma cápsula de cianureto de potássio para, se capturados
e presos pela Wehrmacht, cometerem suicídio e se livrarem da tortura que os
agentes exerciam para exigir que revelassem informações importantes, como o
endereço onde aconteciam as reuniões da Resistência, por exemplo.
Há registros de que quando o nazismo se apossou de parte da França, 900 espaços de detenção serviram a maltratos contra os que, sob o julgamento da Wehrmacht, se configuravam como uma ameaça. Eram campos de internamento, de concentração, prisões, centrais de detenção e fortalezas, para onde eram encaminhados judeus, resistentes, dirigentes comunistas, alemães antifascistas e detentos políticos tomados como reféns, dos quais muitos foram fuzilados.
Há registros de que quando o nazismo se apossou de parte da França, 900 espaços de detenção serviram a maltratos contra os que, sob o julgamento da Wehrmacht, se configuravam como uma ameaça. Eram campos de internamento, de concentração, prisões, centrais de detenção e fortalezas, para onde eram encaminhados judeus, resistentes, dirigentes comunistas, alemães antifascistas e detentos políticos tomados como reféns, dos quais muitos foram fuzilados.
Acervo Musée de la Résistance Nationale
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Comunicado alemão contra resistentes comunistas |
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Decreto alemão de Corte Marcial anunciando o fuzilamento de um resistente por ter sabotado cabos telefônicos |
Georges Duffau-Epstein,
presidente da Associação Nacional das Famílias de Fuzilados e Massacrados da
Resistência Francesa e Seus Amigos (ANFFMR), afirma que “140 mil resistentes foram deportados ou levados
a campos de concentração, dos quais quase 100 mil morreram”.
Diante do poderio
alemão, conclamar a liberação da França só foi viável com a ajuda das tropas dos
países aliados que no Dia D, 6 de junho de 1944, sob o comando do general
norte-americano Eisenhower, desembarcaram na Normandia, no noroeste francês, e
dali em diante uma série de processos de insurreição foi desencadeada, como o
que liberou Paris em 25 de agosto de 1944.
Acervo Musée de la Résistance Nationale
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Exemplar do jornal que leva o título Libération |
Memória
e continuidade
O Musée de la Résistance Nationale, localizado nos arredores de
Paris, forma com mais de uma dezena de espaços distribuídos na França, entre
museus e centros históricos, uma rede institucional que tem por objetivo
recontar a história da Resistência e da Liberação. De um modo geral, esses
lugares são fruto do esforço de resistentes, que, organizados em associações,
conseguiram compor locais voltados à disseminação das suas ações.
Foto: Luciano Fogaça
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Fachada do Musée de la Résistance Nationale |
Em Paris, há pelo menos
quatro endereços com este perfil, sendo um deles um complexo museográfico situado
no bairro Montparnasse, sob o nome de Memorial
du Maréchal Leclerc de Hauteclocque
et de la Libération de Paris e Musée
Jean Moulin de la Ville de Paris. Em seu interior não
somente jornais, cartazes e fotografias originais da década de 40, mas também o
depoimento vivo de Charles Pegulu de Rovin, que aderiu à luta contra as forças
alemãs na fase final da Resistência, quando a atuação estava mais voltada à Liberação.
Hoje, com 89 anos, ele trabalha voluntariamente no memorial dedicado ao
marechal Leclerc, onde exerce a função de conselheiro histórico.
Rovin integrou a
Segunda Divisão Blindada (2ª DB), unidade militar francesa independente, criada
pelo general Philippe Leclerc, em Témara, no Marrocos, durante a Segunda Guerra
Mundial, e que recebeu importante contribuição dos Estados Unidos:
“praticamente tudo que tínhamos vinha dos norte-americanos, até o que
comíamos”, brinca Rovin, que após ter atuado na liberação de Paris, participou
da Campanha da Alsace, libertando Strasbourg e cidades vizinhas, e depois
seguiu até a Alemanha numa espécie de escolta aos alemães: “fomos levá-los em
casa”, ironiza.
Na década de 40, o
ex-combatente, que não é de uma família de militares, integrava a equipe da
Força Nacional, que deveria, em caso de bombardeio, se dirigir ao local
bombardeado, e, antes de prosseguir contando como se desenvolveu a sua
participação na liberação de paris, ele fez questão de deixar dito: “as coisas com
a Alemanha estão resolvidas; não há mais nenhum problema, atualmente”.
Adesão
à luta
Chamado a falar da
forma como se engajou nas ações contrárias aos alemães, Rovin contou: “quando
me juntei ao grupo que trabalhou na Liberação, eu tinha 18 anos e estudava
engenharia. Eu me engajei em 1943, no Hotel de Ville (o equivalente a uma
prefeitura municipal), onde estavam os alemães. Havia uma perspectiva de
bombardeio, mas este não houve; ainda bem, pois eu, por exemplo, estava armado
apenas com uma metralhadora Sten e tudo que ela produziria seria apenas 30
segundos de fogo. Nós entramos, então, pelas portas do lado e os alemães se
renderam no dia 25 de agosto de 1944”.
Foto: Luciano Fogaça
Ex-combatente Charles Pegulu de Rovin |
Depois de cumprir seu
ciclo na 2ª DB, Rovin deixou a carreira militar e passou a trabalhar com o pai
no setor de usinas. O conselheiro se lembra de seu engajamento como uma ação
cívica que lhe era indispensável fazer: “Nós estávamos ocupados pelos alemães,
e era uma ocupação muito pesada, muito demorada – já faziam quatro anos. Havia
alemães por todos os lados, havia toque de recolher, existiam calçadas nas
quais não podíamos pisar. Então, quando eu soube de um possível bombardeio em
Paris, eu fui ajudar a construir a Liberação. Se seu país está ocupado, é um dever recuperá-lo”, declara.
“Para mim aquilo foi
normal, tínhamos que nos desvencilhar dos alemães, as coisas não podiam
continuar como estavam. Era preciso nos libertar do inimigo. Aquele era o nosso
dever. Pena que hoje as pessoas infelizmente não conseguem mais saber qual é
exatamente o dever a ser feito”, analisa Rovin, que guarda uma grande admiração
pelo general Leclerc, líder da 2ª DB.
“O general era justo.
Para ele, um homem era algo muito importante. Entre nós, soldados, o chamávamos
de “O chefe”, e para saber o que ele significa, basta dizer que, hoje, 70 anos
depois, 1000 ex-integrantes da 2ª DB continuam contribuindo financeiramente
para uma associação em torno do seu nome. Nenhum partido político, nenhum
sindicato, que esteja fora de operação por 70 anos, tem isto”, destaca Rovin mostrando,
em seguida, o afeto que permanece entre os que serviram à divisão: “quando nós
nos encontramos, nós nos cumprimentamos com beijo e não falamos nem em
dinheiro, nem em política e nem em religião”, diz sorrindo.
Após
a Liberação
Quando a Resistência se
dedicou mais atentamente à organização das estratégias voltadas à Liberação e
se propôs a pensar no modelo da gestão política que seria realizada depois da
retomada da França, outras discordâncias emergiram, sobretudo, no que tange à
tentativa de organização de um partido dos trabalhadores que viria a reunir os
anseios esquerdistas.
O dissenso entre os
resistentes não foi diluído e, portanto, uma nova república não foi
imediatamente instalada. Sendo assim, o CFLN (Comitê Francês de Liberação Nacional)
foi convertido em GPRF (Governo Provisório da República Francesa) e governou a
França até a posse do presidente Vicent Auriol, em janeiro de 1947, quando uma
constituição foi promulgada e a IV República instituída.
De Gaulle, entretanto,
só viria a presidir a França em 1959, depois de em 1958 ter liderado a redação
de uma nova Constituição e ter fundado a atual V República. Ele permaneceu na
presidência até o ano de 1969.
Condecorações
Para recompensar os resistentes,
o Estado francês, além de garantir as devidas indenizações, concedeu algumas
honrarias, entre as quais a Ordre de la Libération
(Ordem da Liberação), criada já por De Gaulle e entregue não somente aos
aproximadamente 1000 resistentes mais atuantes, como também para unidades
territoriais que estiveram intensamente envolvidas nas ações da Resistência,
como as cidades de Paris e Grenoble. Os resistentes prestigiados com tal
distintivo são chamados Compagnon de la
Libération (Companheiro da Liberação) e, hoje, 18 deles estão vivos.
Sarah li todos os posts e fiquei encantada em conhecer essa imprensa clandestina durante a Resistência. Também fiquei curiosa com o Museu para ver as fotos, os depoimentos. Parabéns pela série. Viva!
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