A
presença de De Gaulle, em Londres, estruturando à distância a teia de
pensamentos que alimentava o senso de oposição ao nazismo e que viria a ser
posta em prática na França, sugeriu um modo de classificação que acabou por
nomear de Résistance intérieure (Resistência
interior), aquela que se desenrolava dentro das fronteiras da França, e de France libre (França Livre), a que se constituiu
fora dos seus limites geográficos e que, em Londres, desencadeou a FFL – Forces françaises libres (Forças
Francesas Livres).
A
France libre, no entanto, não se
restringia somente à capital britânica, pois ganhou terreno, ainda que
tardiamente, na África do Norte, onde havia colônias francesas. Estas, num
primeiro momento, responderam sem ressalvas às orientações de Pétain, mas
depois, mobilizadas pelo general Henri Giraud, desenvolveram um posicionamento
antinazista e, em junho de 1943, na cidade de Argel, capital da Argélia, o CFLN
– Comité français de libératon nationale
(Comitê Francês de Liberação Nacional) foi fundado.
De um simples
reagrupamento informal de voluntários – contava em 1941 com um efetivo de 450
pessoas –, a France libre passou a um
organismo com vocação governamental disposto a rejeitar as leis advindas da
França de Vichy. Pouco a pouco a France
libre foi sendo reconhecida pela opinião pública internacional e, em 1943, um
conjunto de 30 países a absorvia diplomaticamente. Suas articulações com a Résistance intérieure eram uma
prioridade e ficou a cargo do BCRAM – Bureau
central de renseignements et d’action militaire (Escritório Central de
Informação de Ação Militar).
Em território francês,
diferentes iniciativas contrárias ao nazismo emergiram. Na parte norte, os grupos mais importantes foram Combat, Libération e Franc-Tireur,
e na parte sul, Ceux de la Résistance (CDLR), Ceux
de la Libération (CDLL) e Organization
civile et militaire (OCM). Com
pontos de convergência e de divergência em relação a muitos aspectos da luta,
sendo um destes a interpretação que cada grupo tinha da noção de
“nacionalismo”, praticamente todos os agrupamentos, num primeiro instante, apostaram
na propaganda como a principal arma política.
Desde os primeiros impulsos voltados à Resistência, jornais e panfletos circulavam na França disseminando seus ideais. Pantagruel foi um dos primeiros e já em outubro de 1940 era produzido, em Paris. Depois dele, centenas de outros títulos foram impressos no país até que, em novembro de 1943, uma espécie de federação nacional da imprensa clandestina foi criada para coordenar os esforços no ramo da comunicação.
Acervo Musée de la Résistance Nationale
Fotos: Luciano Fogaça
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Mimeógrafo usado pela imprensa clandestina |
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Jornal Pantagruel: um dos primeiros jornais veiculados pela Resistência |
Estudantes, religiosos,
políticos de distintas tendências, professores, empresários e intelectuais, que
de alguma forma fizeram parte da Resistência, tinham visões distintas em
relação ao qual deveria ser o alcance do combate, os objetivos que podiam ser
agregados para além dos mais óbvios, e alguns socialistas chegaram a desconfiar
dos reais interesses de De Gaulle, forçando-o inclusive a reafirmar a sua
concordância com a aspiração patriótica do movimento, o que De Gaulle cumpriu,
mas deixando claro que, em sua opinião, a Resistência tinha a obrigação de
também agregar objetivos voltados a uma profunda renovação política e social.
Unificação
Unificar as múltiplas
visões que circulavam no âmbito da Resistência, marcada desde o princípio pela
ambivalência de propósitos, foi se tornando gradativamente uma urgência, visto
que era necessário fortalecer a ação política e definir quais seriam as estratégias
que viriam a resultar na liberação da França, importante projeto da Resistência,
ainda que não tão claro nos seus primeiros anos.
O alinhamento das
distintas frentes da Resistência, ou seja, nacionalista, cristã, socialista e
comunista só viria a se tornar viável no início de 1942 a partir dos pontos
que, entre todos, eram uma concordância, a saber: a oposição irrestrita ao nazismo
e a luta pela retomada da soberania francesa.
Diante disso, coube ao
resistente Jean Moulin, que tinha sido prefeito de Aveyron e, quando da
instalação da França Ocupada havia se recusado a assinar documentos que a
fortaleceriam, a função de mentor do processo de unificação, cujo ápice foi a
criação, em janeiro de 1943, do MUR – Mouvements
unis de la résistance (Movimentos Unidos da Resistência), o qual integrava num
só núcleo os grupos da zona sul e o Comitê de Coordenação do Norte.
Jean Moulin foi uma das
figuras centrais da Resistência e veio a ser capturado pela Gestapo em maio de
1943, morrendo em 8 de julho do mesmo ano, depois de ter sido interrogado e
torturado.
Acervo Musée Jean Moulin
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Jean Moulin |
Os
partisans
Para alcançar os
objetivos traçados, a Resistência, além da unidade de ideias, precisou de
dinheiro e de armas, e estes recursos foram conseguidos paulatinamente, por
meio da doação dos próprios resistentes, que eram chamados de partisans (partidários), adotavam individualmente
pseudônimos, costumavam usar barba, bigode e óculos falsos como disfarces, fizeram
da música Chant des partisans, de Anna Marly, um hino, e
reconheceram a Cruz de
Lorena como símbolo.
http://youtu.be/-FgVkAKd-SY
http://youtu.be/-FgVkAKd-SY
Entre os partisans, havia comerciantes, professores
funcionários públicos, universitários e empresários, como é o caso de Maxime
Védy, cujo percurso revolucionário será narrado noutra matéria, e que doou
parte significativa do seu patrimônio à causa.
Segundo o historiador Jean-François Muracciole, a Resistência detinha,
em 1940, um suporte financeiro de 14 mil francos (o que equivale hoje a aproximadamente
30 mil reais).
Apesar dos esforços empregados
pelos resistentes para conseguirem fundos e se armarem, Muracciole diz que o
movimento sofria de uma contínua falta de dinheiro e a quantidade de armas que
detinha era insuficiente para o número de membros que reunia. Segundo ele, para
a liberação de Paris, havia 20 mil homens mobilizados, mas somente 200 armados.
Resistente
brasileiro
Embora o Brasil tenha
participado da Segunda Guerra, através da FEB (Força Expedicionária
Brasileira), houve um brasileiro que desempenhou importante papel na
Resistência: trata-se de Apolônio de Carvalho, que comandou uma guerrilha em de
Lyon, e em virtude deste engajamento, Apolônio foi condecorado com a Medalha
Legião de Honra.
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